O ano era de 1977 – o dia, 17 de outubro, um sábado. Minha irmã resolve dar um passeio com o Fusca que haviam entregado na quinta em casa. Fusca Branco Polar. Faltava abastecer e colocar o suporte das placas. Posto de gasolina, loja de acessórios – tudo ok! Subimos a Avenida Gabriela Mistral, na Penha. O trajeto era acessar a Estrada do Cangaíba, descer por qualquer uma de suas travessas e chegar à Avenida Assis Ribeiro novamente. Ela no volante e eu de carona. Como eu havia prestado o exame na quinta, dia 15, e estava apenas com o protocolo da habilitação, não poderia estar atrás do volante. Ela havia tirado a carteira de habilitação em Porto Alegre, onde havia morado por três anos.
Lá vamos nós meio no tipo "Conduzindo Miss Daisy”. Até a Estrada do Cangaíba, tudo ia muito bem, obrigado, mas quando ela resolve pegar uma rua para descer até a Assis Ribeiro, o imprevisto acontece!
A travessa em questão fazia um ângulo de 45º (quarenta e cinco graus) com a estrada. Qual o correto? Vir pelo meio fio da estrada, reduzir a marcha e a velocidade, disterçar segurando o freio no pé… não é isto? No momento não foi este o traçado… na mesma velocidade em que ela vinha, disterçou, mas não o suficiente para entrar na rua sem qualquer consequência. Resultado: na virada, fomos parar do lado direito da travessa (como se viéssemos em linha reta), entre um poste e o muro de uma casa que ficava abaixo do nível da rua. Quem olhava por trás do carro parecia que ele estava estacionado. Resultado: ela bateu o nariz no volante, rasgou a perna da calça na chave. Eu, bati a cabeça com tanta força no para-brisa que ele ficou solto e eu ganhei um "galo" que cantou por mais de uma semana na testa; meu banco saiu do lugar e prensou minha perna direita no extintor (tenho sequela); meu braço direito, na inclinação para frente, raspou na alavanca do quebra vento e sofreu um arranhão feio!
Saímos as duas do carro, trancamos. Pegamos um táxi e fomos direto para o PS do Tatuapé. Na recepção, policiais de plantão já fizeram relatório do ocorrido. Aguardamos para tirar chapas e medicar os ferimento (leves). De lá os policiais nos levaram até o 10º DP na Penha. Estávamos meio anestesiadas com o acontecimento. Ninguém chorou… estávamos preocupadas uma com a outra e com o desenrolar de tudo aquilo.
Chamaram para a sala do delegado. Este estava numa longa conversa no telefone e solicitou que aguardássemos uns minutos que ele atenderia. Enquanto isto, admirávamos seus trajes: camisa cor de cenoura, gratava rosé, paletó xadrez de roxo com lilás e calça marrom. Se estávamos tensas com os fatos de então, aquela figura foi o "saca-rolhas" de uma garrafa com gás. Olhávamos uma para outra, tentando conter um riso… por instantes esquecíamos o que a gente estava fazendo ali.
O processo foi instaurado, mas, um ano depois, foi arquivado, pois ninguém havia falecido ou entrado com processo uma contra a outra. Apenas tivemos que refazer o muro da casa onde o carro bateu.
Apesar dos ferimentos terem sido leves, eles não existiriam se estivéssemos usando o cinto. Ele estava lá, no seu devido lugar, mas, naquela época, seu uso não era obrigatório. Os de trás estavam sempre enfiados embaixo do banco.
Hoje o cinto de segurança é como meu relógio de pulso… se não está comigo, sei que falta algo e não consigo sair de casa sem ele.
Eu aprendi a lição!
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