Corriam os anos 70 do passado século. Uma amiga, colega de turma escolar do Instituto de Ensino Imaculada Conceição – domiciliado no espaço hodiernamente ocupado pela academia de ginástica Competition, atrás da igreja Imaculada Conceição – pediu-me para procurar receitas culinárias da doçaria portuguesa. Afirmava que a mãe detestava desperdícios e quando a avó materna fazia talharim em casa – sim: como toda cozinheira tradicional, nutria autêntica ojeriza pelas massas prontas industrializadas, soendo fazê-las sempre em casa – jamais usava as gemas dos ovos.
A mãe, desesperada, queria receitas para aproveitar as gemas, exatamente como as sorores portuguesas medievais, que usavam as claras para engomar seus hábitos alvos como as caiadas paredes das casas lusas e deixavam as gemas para as camponesas pobres fazerem os doces aos maridos que tornavam das faenas diárias, ou em alto mar (pescadores), ou nas terras dos senhores feudais (servos camponeses).
Curioso, pedi-lhe para provar o famigerado talharim. Nunca mais comi uma massa tão bem feita: a delicada pasta caseira era fina como papel e de uma alvura característica de massas feitas só com a albumina (a clara do ovo). Isto muito antes de os nutricionista e médicos admoestarem dos perigos de uma dieta rica em colesterol "ruim". Dona Rosaria fazia questão de que todos as chamassem pela alcunha que o falecido esposo apaixonado lhe dera, já nos átimos de namoro às escondidas dos sogros/pais de dona Rosária: Alberabellla (bela albera, referência à sua origem em Albero, única cidade fora de Espanha e Andorra em que se fala catalão).
Recentemente vi nos supermercados macarrão sem colesterol, feito só com a albumina. Nonna Alberabella lá no céu deve estar imprecando todas as fábricas: roubaram seu segredo. Conquanto a receita seja parecida, duvido de que seja melhor. Somente em uma cidade de tantos povos e histórias, alguém poderia ter provado uma delícia como esta.
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