Eis o texto: Viva la Vida!
Parabéns, São Paulo! E muito obrigada por nos haver acolhido e propiciado nosso desenvolvimento pessoal, cultural e profissional!
O que é São Paulo para mim?
É o local que o meu pai, Tomás Suller Marzá, escolheu, em meados de 1952, para tentar a vida, estabelecer a família e viver. Ou, pelas dificuldades de então, sobreviver. Escolha, talvez não seja o termo exato. As circunstâncias da época é que, praticamente, o obrigaram a ficar. E hoje eu sou grata por isso.
Vindo da Espanha pós-guerra, fugindo das dificuldades de lá e acreditando no potencial da América, ele tinha o sonho de que neste continente teria mais oportunidade para viver e criar a família. Família essa que já contava então com dois filhos e outro a caminho, eu, que acabou nascendo em meio a grandes dificuldades apenas quatro meses após a chegada ao Brasil.
O destino original, ao que parece, era a Argentina. Não conheço bem esse pedaço da história. Mas a Argentina, naquela época, meados de 1952, acabara de perder sua Primeira Dama, Evita Perón, e passava por grandes convulsões. De uma forma ou de outra, foi por aqui que ficamos.
E foi precisamente aqui, onde nasceram ainda mais dois filhos depois de mim, que todos tivemos a sonhada oportunidade de estudar, trabalhar, crescer. Dos cinco filhos, os dois que nasceram na Espanha naturalizaram-se brasileiros e formaram-se, respectivamente, em Letras e Engenharia.
A mais experiente, Ana, que chegou ao Brasil com sete anos de idade e que, por isso mesmo, passou as maiores dificuldades, só pôde completar os estudos depois de casada e com três filhos. Mas estudou Letras e posteriormente Pedagogia. Foi professora de Português nas redes públicas municipais e estaduais, foi diretora de escola e hoje é supervisora de ensino da Secretaria Estadual da Educação.
O segundo, Francisco, chamado de Paco, que chegou ao Brasil com quatro anos de idade e aos 13 anos já trabalhava "com carteira assinada", estudou paralelamente e formou-se em Engenharia, havendo ingressado mediante exame de seleção, na SABESP, onde ainda hoje ocupa o cargo de Engenheiro.
E eu, a terceira da lista, nascida no mesmo ano da chegada ao Brasil, 1952, também comecei a trabalhar cedo e "com carteira assinada". Comecei a trabalhar aos 15 anos, enquanto também começava o então chamado Curso Científico, uma das vertentes do que posteriormente se chamaria Colegial.
A intenção, desde o início, era cursar Direito. Mas então por que começar pelo Científico e não o Clássico, então existente? Simples, porque era o único curso disponível em escola pública em Itaquera, bairro em que morávamos e no qual ainda reside a maior parte da família. Trabalhava e estudava. Trabalha, estudava e pensava em seguir em frente. E segui.
Aos 17 anos, já cursando o 3º ano do Curso Científico e tendo dois anos de trabalho tive uma das primeiras atitudes ousadas da minha vida. Pedir demissão do emprego e propus um "acordo" pelo qual eu poderia levar o Fundo de Garantia, então já existente, pois estávamos em 1970, para pagar um "cursinho" semiextensivo que me propiciasse prestar o Vestibular para o ano seguinte. Consegui o acordo e com o valor recebido foi possível pagar integralmente o tal "cursinho" que era ministrado pela manhã em algum prédio da Praça da Sé. Não me recordo o número. À noite eu continuava cursando o 3º ano do Científico.
Prestei vestibular ao final do ano pelo Cescea (será que era assim que se escrevia?), precursor da Fuvest, para a área de ciências humanas. Resultado: fui aprovada e ingressei em 1971 na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com suas famosas Arcadas, no Largo de São Francisco (a velha sempre nova Academia). De lá saí formada em 1975, passando, no ano seguinte, no concurso para o cargo de Procuradora Municipal. Tudo isso foi acompanhado com muito orgulho por aquele imigrante espanhol que aqui chegara em 1952 e que sabia haver acertado em sua decisão de aqui se estabelecer.
Os outros dois filhos nascidos por aqui, também souberam aproveitar as oportunidades que este país e esta cidade em especial lhes ofereceram. Embora não tenham concluído os cursos superiores nos quais chegaram a entrar, afirmaram-se de maneiras diferentes.
O quarto da lista, Tomás, é funcionário extremamente dedicado do Banco do Brasil e, nas horas vagas, desenvolveu habilidades manuais de forma que executa quase todas as funções necessárias ao andamento da casa: marcenaria, pintura, construção, eletricidade e outras coisas afins. Também mantém os próprios carros, dificilmente utilizando-se de profissionais dessas especialidades.
Vale lembrar que o nosso pai trabalhou por 27 anos como mecânico de automóveis, havendo- se aposentado por idade, com 65 anos, já que tendo chegado ao Brasil com 35 anos, teve a tal "carteira assinada" com idade muito superior à de seus filhos.
Além de trabalhar de segunda a sábado na oficina mecânica, aos sábados à tarde e aos domingos ia construindo, tijolo por tijolo, a casa em que passamos a residir tão logo as paredes ficaram de pé. E depois, enquanto teve forças, e isso ocorreu por muito tempo, sempre havia algo para fazer: aumentar a casa, pintar, construir outras pequenas casas para alugar e coisas afins. Sempre com pouquíssima ajuda de terceiros, pois não havia dinheiro para pagar-lhes.
Meu pai fazia quase todos os trabalhos necessários à construção e manutenção das casas, apenas com a ajuda da própria família. E o meu irmão, Tomás, que por sinal é seu xará, continua fazendo a mesma coisa.
Quanto ao caçula, Ramon, teve trajetória um pouco mais fácil, mas nem tanto. Aos 15 anos também já trabalhava. Hoje é um pequeno empresário e entre altos e baixos vai vivendo. Esse aproveitou um pouco mais a vida do que os outros. Ele soube e sabe aproveitar melhor. Foi o primeiro a conhecer o exterior. Levou os filhos para a Disneylândia e para Bariloche, entre outros lugares. Trabalha muito, mas tem o merecido descanso quando pode e proporciona à família muito do que jamais tivemos.
Meu pai faleceu em novembro de 2000 aos 83 anos de idade. Nos últimos tempos de vida, embora um pouco esclerosado, quando as lembranças recentes fugiam da memória e as antigas, bem antigas, do seu tempo de criança, eram as mais vivas, sempre que nos via chegar à sua casa erguia os braços e dizia "Viva la Vida!". Era sua saudação para cada novo dia. Muitas vezes falava da sorte de ter vindo para o Brasil onde todos tiveram oportunidade de estudar e onde ele pudera viver o suficiente para assistir ao nosso sucesso.
Dizia que isso contrariava o prognóstico dos conhecidos e mesmo dos parentes que ficaram na Espanha e que diziam ser uma imensa loucura tentar a vida em outro continente, sem uma colocação, quase às escuras. Diziam também que a expectativa de vida aqui não chegava aos 40 anos (e acho que na época devia ser mais ou menos isso mesmo). Enfim, ele trabalhou muito, sofreu relativo desgaste, mas dobrou a expectativa de vida então acreditada.
E minha mãe, por onde anda?
Ah, ela continua em Itaquera. Conta hoje com 82 anos e, tirando uma artrose bastante séria nos quadris, que lhe dificulta muito o caminhar, vai bem, obrigada. Seu raciocínio e memória dão de dez a zero em muitos jovens. Assiste a vários telejornais, lê jornais e revistas semanais, sabe o que acontece na vizinhança e dá palpite em tudo. Às vezes até um pouco demais. Mas é muito bom saber que ela também deixou e vai continuar deixando para trás, por muito tempo, as tabelas de expectativa de vida baixadas não sei por quem.
O que importa é que ela está aí. E vai comemorar os 450 anos da Cidade de São Paulo como em 1954, apenas um ano e meio depois da chegada ao Brasil, comemorou os 400. Por tudo isso é que eu agradeço ao Brasil e em especial a São Paulo pela acolhida e pelas oportunidades.
Estou participando na medida do possível das comemorações dos 450 anos da cidade e quero deixar registrada essa participação para que, em 2054, nos 500 anos da Cidade de São Paulo algum descendente possa dar continuidade a essa comemoração e ato de agradecimento (para ser muito sincera, eu mesma espero estar por aqui, com meus 101 aninhos, também quebrando as barreiras das tabelas oficiais de expectativa de vida).
Esta é a minha maneira de homenagear São Paulo e meu pai, Tomás Suller Marzá, nascido em 30 de agosto de 1917 em um lugarejo chamado Villafamés, situado na “Província de Castellón de la Plana, Valência, Espanha”. E que chegou ao Brasil no dia 25 de julho de 1952, com a esposa Carmen e os dois filhos Ana e Francisco, conforme consta nos registros do navio de bandeira francesa "Provence", existentes no Memorial do Imigrante em São Paulo.
"Viva la Vida!"
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