A venda do Manezinho

Eram meados dos anos 1950, nosso bairro aqui no fundão da zona Sul, no alto de Vila das Belezas e Jardim São Luiz, os mais antigos, após o Rio Pinheiros, começava o bairro a se expandir mesmo depois de mais de 30 anos de loteados, as chácaras começaram a ser vendidas e loteadas dando a criação de centenas de terrenos de 10m x 25m, padrão na época, e com os loteamentos vieram também o comércio que na época denominavam-se vendas ou secos e molhados ou ainda empório e até um misto de quitanda.

Aqui no alto do bairro o primeiro comércio nesse sentido foi o bar ou venda do Manezinho, onde se encontrava de tudo, quase tudo, o dono era um jovem mineiro ainda, recém-casado com Dona Nica e abriram esse comércio na Rua Arthur Bliss, na parte de trás da venda era a casa deles, separada por uma porta com cortina, tanto a parte interna como externa era caiada de branco e azul, que com o tempo e/ou uma chuva ficava toda descorada, assim como a maioria das casas.

Era tradicional aquela porta grande de entrada e logo na frente via-se de um lado o balcão de pedra mal acabado e ainda sem geladeira a não ser aquela do tipo armário onde se guardava blocos de gelo e depois foi adquirida pelo dono uma “frigidaire” usada.

Do lado direito um móvel de madeira envidraçada, onde eram expostos os doces e balas, as balas ficavam também em um recipiente giratório de vidro bojudo com a tampa na horizontal.

Mais ao lado e atrás havia as caixas de madeira chanfradas que continham cada uma um tipo de grão, como arroz, feijão, farinha de trigo, milho, que eram retiradas com uma concha metálica e pesada em uma balança Filizola, analógica, que possuía um espelho redondo no centro.

Também tinha alguma coisa em legumes como batata, mandioca e outros, assim como bebidas em geral e aquelas barras de banha, muito usada, e o óleo de amendoim em latas retangulares da marca salada.

Toda manhã íamos buscar o nosso pão e o leite de cada dia, que ele trazia da padaria São Luiz ou Vila das Belezas e às vezes de Santo Amaro para revender, e às vezes trazidos pelo carroceiro do bairro. O leite era o Paulista em garrafas bojudas com tampinhas de alumínio que furávamos e vínhamos tomando-o pelo caminho.

Durante o dia também íamos buscar, ou minha mãe mesmo, o que faltava para fazer o almoço e/ou jantar. Nos finais de semana ali era mais um bar que uma venda, pois ali se encostavam muitos moradores e que gostavam de uma "birita", inclusive meu pai, e os assuntos rolavam o dia todo, também acontecia o encontro de jogadores e torcedores do campo da A. A. Portuguesa de Vila das Belezas e do Vila das Belezas F.C. , pois esse estabelecimento ficava entre dois campos de futebol, quantas vezes a minha mãe pedia para chamar meu pai nos fins de semana para almoçar e dificilmente ele me atendia.

Na frente da venda tinha aquela vitrine de doces chamativos e coloridos e nós crianças em verdadeiro bando que andávamos pelas ruas do bairro a procura do que fazer, ora futebol no campinho, ora bate lata, ora esconde-esconde e toda brincadeira de infância, e não podíamos de deixar de lado nosso lado "mau", que de vez em quando íamos "assaltar" o bar do Manezinho, nos doces, era só puxar o tampão de vidro do balcão e encher os bolsos, lembro das maria-moles que espremia e escorria entre os dedos.

Como ele trabalhava sozinho, a esposa Nica de vez em quando ia ajudá-lo, nosso esquema era chamá-lo lá no fundo do quintal através de um terreno baldio e ele prontamente ia atender e a turma que ficava lá na frente fazia o serviço e isso se repetia por muito tempo, já adulto sempre pensei: será que ele era muito inocente ou não queria nos pegar no flagrante, pois era muito fácil a tarefa, tinha até meninas no grupo, hoje senhoras recatadas que não admitem que seus filhos e/ou netos façam isso.

Nesse tipo de comércio era onde a maioria das coisas era comprada pela maioria dos moradores do bairro na famosa caderneta, que no final do mês nosso pai ia pagar, em casa era eu quem somava o total da conta nos meus poucos anos de idade, raramente a soma total dava errado.

O Manezinho veio de Minas Gerais e aqui fez sua vida, creio que não chegou à riqueza, talvez por falta de investimento ou se contentar com o que tinha, nos anos 1980 com o crescimento do bairro e grandes comércios como sacolão, padarias, quitandas, mercados, seu comércio foi caindo, perdendo a freguesia, pois ele nunca mudou sequer uma prateleira, nem o balcão e com isso fechou o bar, o ponto, pelos idos de 1980 e foi trabalhar de taxista, onde labutou até 2011, lutando sempre, quando veio a falecer um dos filhos herdou o táxi e o outro alugou o velho bar ou venda para uma loja de roupas, mas ali está até hoje a mesma cara daquela venda, que surgiu nos primórdios do bairro.

Vale salientar que, como o bar do Manezinho, havia muitos outros pela região, implantou-se o do Sr. Ramos, que eram concorrentes; Prudente no Jardim São Luiz; Empório São Damião; Mário Coluna com sua Coap e muitos outros.

Alguns ainda estão com os filhos e até netos, mas com a mesma "cara" de antigamente, onde se vê espalhado pelo salão alguns utensílios de cinco décadas e cheio de teia de aranha, garrafas de bebidas empoeiradas, mas ali estão firme e forte e outros em sua maioria deram espaço para modernos empreendimentos comerciais e residenciais. Como só acontece com quem passou de uma certa idade, pode comparar essas épocas que deixaram saudades.

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