A Turma da Raul Pompéia

Em uma das festas de comemoração do aniversário de minha prima Ângela, por volta dos anos 60, conheci José Roberto e Emigdio (Tito) Carlomagno. Minha prima residia com seus pais, Domingos e Adelina, no final da Rua Raul Pompéia, na Vila Pompéia, zona oeste da capital. <br><br>O frio estava intenso naquela distante noite de outubro. Comecei a conversar com os dois primos e falamos sobre muitas coisas, sendo que o assunto principal foi o futebol, esporte predileto de 10 entre 10 garotos da época. Éramos muito jovens, na faixa de 15 ou 16 anos. José Roberto e Tito demonstraram, para mim, muito conhecimento sobre os times e seus jogadores. <br><br>A empatia entre mim e Roberto foi imediata, e ele, que seria no futuro meu grande parceiro no futebol, convidou-me a "aparecer na Raul para uma pelada" com os garotos da turma. Passados alguns dias, resolvi "aparecer". Como residia na Rua Dr. Miranda de Azevedo, caminhei apenas duas quadras. Reencontrei Roberto, que me apresentou alguns garotos dessa turma, como Lipa, Cabeção, Thomaz, Banheira, Sérgio Gordo, Zepa e outros. Zé Inácio e Celsinho eu já conhecia, pois estudavam comigo no Colégio Riachuelo.<br><br>Comecei, a partir daí, a conviver com essa galera, sem abandonar a minha, da Miranda. Com eles, pude vivenciar melhor o "jogo de bola". Nossas conversas giravam basicamente a respeito dos campeonatos Paulista e Carioca. Fazíamos comparações entre as equipes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ouvíamos as transmissões esportivas de Pedro Luis e Edson Leite, considerados os melhores locutores de São Paulo nos anos 60, e os comentários de Mário Moraes e de Leônidas "Diamante Negro" da Silva, ex-jogador do SPFC. <br><br>No dia seguinte às transmissões, nossas discussões eram a respeito dos resultados e dos comentários dos jogos. Estendíamos nossas discussões além dos craques paulistas como Luizinho e Baltazar, do Corinthians, Zizinho e Canhoteiro, do São Paulo, Chinesinho e Mazzola, do Palmeiras, Pelé (surgindo) e Pagão, do Santos; sobre astros cariocas, como Garrincha, pouco conhecido em “Sampa”, porém já famoso na Guanabara, assim como Didi e Quarentinha, do Botafogo. Do Flamengo, apontávamos Índio, Dida e Zagalo como os melhores. <br><br>Enfim, 80% de nossos assuntos tinham como tema o esporte das multidões. Na esquina da Raul com a Rua Ministro Ferreira Alves, onde ficava o bar do “japonez”, usávamos as "duas bocas de lobo", que existem até hoje, para disputar partidas de "tampinha no bueiro". Esse gostoso joguinho se resumia em chutarmos tampinhas de garrafas de um bueiro no outro (ambos ficavam frontalmente de um lado e do outro da rua e eram, momentaneamente, transformados em gols. Em outras tardes, jogávamos renhidas partidas de botão, que representavam times de São Paulo contra os times do Rio. Porém, o que mais me empolgava eram as nossas "peladas", disputadas nas tardes de sábado. <br>As partidas eram jogadas na Rua Dr. Augusto de Miranda, no paredão da fábrica de acumuladores Saturnia, entre as Ruas Padre Chico e Ministro Ferreira Alves. Utilizávamos as árvores plantadas na calçada como gols, entre as quais Cabeção, com seu uniforme preto, despontava como nosso goleiro. Jogávamos descalços sobre o calçamento de paralelepípedos que cobriam as ruas do bairro, em sua maioria. <br><br>O resultado era que, ao final dos jogos, tínhamos joelhos ralados, dedões dos pés sem pele, além de outras contusões mais sérias, como braço quebrado, tornozelo torcido etc. Alguns desses jogos, dada a rivalidade existente entre as turmas das variadas ruas, não terminavam ou terminavam em brigas. Lembro-me também das festas juninas no bairro, em que fogueiras eram acesas sobre o calçamento de pedras. Alguns moradores soltavam pequenos balões brancos, conhecidos como "balão japonez".<br><br>Muito pequenos, não subiam muito e logo caíam, pois a tocha, feita de cera endurecida, derretia rapidamente e apagava-se. Corríamos atrás desses balões, na ânsia da conquista, pois cada garoto sentia muito orgulho em conseguir o maior número desses "troféus" e exibi-los para a turma. Frequentei essa inesquecível turma durante algum tempo. Foram momentos marcantes de minha adolescência.<br><br>Momentos que me encheram de alegria e que hoje, comentando e recordando com Roberto, me trazem muitas saudades e lembranças sadias. <br><br><br>