Muitas histórias que pude ler aqui no site contam fatos alegres, cômicos, sobre São Paulo, amorosos, mas não encontrei nenhuma que falasse a realidade das turmas de antigamente, que foram (infelizmente) o protótipo das gangues de hoje (que estão associadas a roubos e drogas) o que era o contrário de antigamente, que a palavra "turma" era associada à baderna, confusão e brigas sem muitas consequências, além de um olho roxo e roupas rasgadas.<br><br>Guardadas às devidas proporções, antigamente não existia a turma do mal, e sim, a turma do agito, que arrumava confusão e brigas em todos "bailinhos" que aconteciam aos sábados, em casa de família ou em clube (chamado também de "domingueira" e, acreditem se quiser, terminava às 23h00!).<br><br>Não é preciso ler nenhum manual de guerra para entender a organização de uma turma de um bairro ou rua. A formação começa simplesmente com vizinhos com idades semelhantes que definem um ponto de encontro e aos poucos tomam conta do local, e conforme a turma vai aumentando, aumenta o poder, que começa a impor regras a todos que não façam parte da turma, e essa evolução chega a tal ponto que, sem exagero, chega ao ponto de criar um poder paralelo em uma comunidade.<br><br>O mais interessante na formação de uma turma começa com a hierarquia que lembrava a formação militar dos antigos guerreiros de Atenas, sendo o mais forte da turma um líder, enquanto outros integrantes mais antigos seriam os oficiais que seguiam o líder; mais os soldados, que eram quase sempre os novos integrantes da turma, que seriam considerados os obreiros ou prestadores de serviço. Nenhum integrante portava arma de fogo, o máximo seria alguém usar uma arma chamada "soco inglês" que raramente era usada, ou quando usada, acabava em instantes com qualquer briga.<br><br>O território era demarcado com linhas imaginaria; a entrada era proibida para membros de outras turmas sem que fossem convidados.<br><br>Algumas pessoas evitavam passar em frente à nossa esquina e, por conta disso, davam voltas enormes no quarteirão.<br><br>A turma também era uma espécie de turma do Bolinha onde "menina não entra". As namoradas ou irmãs tinham trânsito livre pelo nosso murinho, mas não frequentavam a turma; podiam andar a qualquer hora do dia em segurança pelas ruas do bairro, inclusive usando minissaia (moda da época) sem que nenhum estranho ou morador tivesse coragem de fazer qualquer gracinha.<br><br>Eu presenciei e participei de muitas brigas, muitas por causa dos cabelos longos que usávamos (moda da época); outras por causa de garotas; outras por conta de balão de São João que estava caindo em nosso território; e outras brigas sem sentido, simplesmente porque algum pedestre ou passante encarou alguém da turma.<br><br>Fazer parte da turma e ser conhecido era uma credencial no relacionamento com a família daquela garota que estava querendo namorar, facilitava o trânsito em outras turmas menores, abria as portas no comércio local para todo tipo de ajuda, impunha respeito com os moradores, mas era também o passaporte para o perigo, quando as Madres do Colégio Boni Consili chamavam a polícia para expulsar-nos das dependências do colégio, onde só estudavam garotas.<br><br>Posso estar enganado, mas em São Paulo não vejo mais turmas de bairro… O que vejo são garotos e garotas trocando mensagens pelo celular, pela internet usando o Twitter ou Facebook, conversando por e-mail, tudo muito impessoal.<br><br>E-mail: [email protected]