São Paulo, 17 de junho de 1962. Eu era só um menininho; sabia nada de futebol.
Um dia, meu pai me tomou pela mão e lá fomos nós ao bar do Armando. Eu só pensava no sorvete que iria ganhar, qual sabor escolher, limão ou milho verde; meu pai, claro que somente soube disso muito tempo depois (tanta coisa na vida só descobrimos quando já é muito tarde.), ia com o coração disparado, suando frio. Era a final da copa de 62.
No bar, haveria a transmissão do jogo. Os homens com rostos afogueados, excitados pela aguardente alguns, pela emoção a maioria, aguardavam febris. O cheiro forte de suor dos homens misturava-se ao odor que exalava dos cavalos arriados que, à porta do bar, aguardavam seus cavaleiros. No jardim, em frente à igreja, crianças da minha idade corriam, brincavam; mulheres tricotavam, cerziam. Acho que o que atraia minha atenção para o mundo lá fora era a indiferença.
No bar, homens rudes emocionados urravam a cada lance, a cada gol.
Dois nomes martelavam em minha cabeça: Garrincha e Amarildo.
Foi meu jogo inesquecível.
Depois disso, veio o fracasso de 66. Em 1970 eu era um adolescente, já sabia muito de futebol, mas também sabia de coisas que talvez não devesse saber. Sentia uma espécie de dor na alma ao ler notícias – quando era possível ler estas notícias – da crueldade que era o Brasil dos militares. Acho que sofria por não ir, por não lutar.
Claro que me emocionei com a seqüência de dribles do Clodoaldo contra o Uruguai, com o quase gol do Pelé do meio da rua (aquele que não entrou), com a conclusão de Carlos Alberto, fechando a goleada histórica contra a Itália, mas já não era a mesma coisa. O processo de desconstrução já se instalara. A taça do mundo fora servida.