Vila Maria e as curvas

Tenho uma certa fixação por determinados bairros e a Vila Maria é um deles. Vila Maria baixa, onde por volta de 1976, havia um bar que conhecíamos por “Porta Aberta” (nenhuma ligação com a música famosa do Vicente Celestino; o caso é que o bar não tinha portas mesmo, ou seja, nunca fechava). Um pouco à frente deste bar, na mesma rua (que não me recordo o nome), ficava a boate Cachoeira (outro risca faca, já se vê) onde abrilhantava as noites insones o balet do Manteiga; neste balet, mostravam seu talento as belíssimas – pelo menos à noite, no ambiente pessimamente iluminado, claro – Índia e Bonitinha (nomes de guerra suspeitíssimos).O fato é que eu, meio que descobrindo o mundo e as coisas do mundo, andava por ali. Cheguei a ter um caso com uma delas. Aliás, acho que era por isso que eu gostava tanto da Vila Maria, ou antes, acho que foi por isso tudo que a Vila marcou tanto em minha vida. Tive diversos casos com garotas dali. Umas, de comportamento pra lá de familiar, outras nem tanto assim e algumas claramente “profissionais”, mas que, seja lá por que motivo fosse, tinham mania de me “adotar” pra “namorado”.
De todas esta paixões efêmeras, uma me ficou mais forte na lembrança. Tratava-se de uma garota que eu pegava no trabalho ali perto da Praça Santo Eduardo, acompanhava até a casa dela, nas proximidades da Praça J.J. da Nova, ganhava um beijo caliente, sofria como que uma descarga elétrica, ficava em polvorosa, mas não “ficava”. Um singelo até amanhã jogava água no fogo incipiente da paixão. Apesar desse fogo contido, era muito bom. Talvez devesse guardar a lembrança boa e ir dormir, mas não. Ao despedir-me prometendo ir pra casa, era na boate Cachoeira que eu encerava a noite, e aí, a um passo do fogo, gostosamente eu me queimava.