A rua do posto

Iniciava o ano de 1972 quando uma menina de 14 anos me deu seu caderno de recordação para que eu escrevesse nele alguma lembrança…

Eu o apanhei com carinho e até com muita emoção, pois dela eu já estava enamorado há algum tempo.

Levei-o para casa, e naquela noite não conseguia dormir, só pensando o que nele escrever… Lá pelas duas ou três horas da madrugada levantei-me, peguei aquele caderno perfumado e escrevi o seguinte:

AUREA

Quando a noite chega, fria e silenciosa me encontra sozinho, me encontra pensando. Meu olhar vazio perde-se na escuridão imensa, bem como a fumaça pálida e frágil de meu cigarro. Nem mesmo o vento úmido e gelado consegue varrer do meu pensamento a lembrança que alguém deixou… As nuvens passam rápidas e pesadas pelo céu, parece que tentam seguir os rastos de quem partiu; mas não irão conseguir eu sei… Quem partiu não deixou o menor sinal. Nem mesmo na areia branca e fina que recebe com ternura o beijo das alvas ondas… Quem partiu não deixou marcas, nem na areia nem em lugar algum. Só deixou saudade… uma saudade doce imensa e imorredoura.

Luiz
São Paulo 29 de fevereiro de 1972

Em 1976 nos casamos na igreja Monte Virgem, na Penha. Hoje, de vez em quando, passamos pela Rua Francisco Amaral, local onde nos encontrávamos às escondidas e que para nós era apelidada de Rua do Posto.

A emoção ainda é a mesma… Parece-me que a vejo chegar com o uniforme branco do ginásio. Nos braços bem junto ao peito o caderno de português, o livro de história e o estojo colorido.

O tempo passou, vieram os filhos, as dificuldades, os problemas aumentaram… Mas também aumentou cada dia o nosso amor, a nossa amizade. Sempre que quero deixar a ela um recado lembro-me do caderno de recordação…

Ainda bem que, apesar de romântica, aquela narrativa não se cumpriu. Pelo contrário, juntos nos recordamos com saudade e com muita alegria daqueles tempos. E ao olharmos para trás, na areia branca e fina da vida podemos ver nossas pegadas sempre juntas, sempre firmes um ao lado do outro até um dia… até quando Deus quiser.

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