A rua da minha infância e adolescência

Caro Johannes Luyten

Adorei a idéia de passarmos para o papel as coisas que resgatam tempos passados e que podem se perder se não as deixarmos grafadas.

A rua da minha infância é a Rua do Níquel. Também no Brooklin. Inicia-se na marginal da Avenida Vereador José Diniz e termina na confluência da Platina com a Rua da Prata. É uma pequena passagem de apenas um quarteirão, mas que guarda histórias pitorescas de convívio agradável.

Mudei-me para lá aos quatro anos de idade no ano de 1956. Meu pai foi atrás da fábrica de chocolates Lacta onde trabalhou por trinta anos. A rua era de terra e o que mais me marcou nos primeiros tempos foi que toda vez que chovia forte a enxurrada levava a esquina e ficava um buracão, tínhamos muito medo que pudesse abalar as edificações ali existentes. Os moradores procuravam dentro das suas parcas possibilidades mudar o curso das águas enquanto a prefeitura não viesse resolver o problema.

Havia uma casa enorme na esquina que dava frente para a rua do Ouro, depois tornou-se a escola “Mágico de Óz” que ficou ali por muitos anos. Morávamos em um conjunto geminado de seis casas. Na frente havia um terreno baldio em forte aclive que terminava no córrego do cordeiro e, após, se via uma chácara de flores que se estendia até o horizonte e tornava a paisagem observada do terraço da minha casa muito gratificante. Hoje é a Avenida Vicente Rao.

A primeira casa do conjunto era habitada por alemães que se revezariam, coincidentemente, ao longo dos anos. A princípio era um Senhor muito sério que se chamava Werner e possuía duas filhas, a Mariana e a Úrsula. Ele tinha recordações terríveis da guerra e sofria muito. Pude compreender, nessa época, como o passado pode comprometer todo o nosso futuro. Depois mudou-se para lá o Senhor Jurgens, também alemão, mas nascido no nordeste brasileiro, casado com Dona Úrsula que não falava uma palavra sequer de português e que foi uma grande companheira para minha mãe, teve uma menina linda chamada Kátia. Meu pai gostava dela como se fosse neta dele. Depois veio a Dna Eleonore com duas filhas e um filho que se chamava Danilo, também descendentes de alemães, quando ela se mudou de lá, o filho, já casado, ficou morando na casa. Lembro-me que certa vez a esposa do Danilo conseguiu mudas de árvores e as pessoas da rua plantaram muitas árvores no terreno baldio e deram seus nomes à elas. Outra vez ela conseguiu lenha e fizemos uma fogueira enorme para a nossa festa junina que fechava a rua e todos os moradores e seus familiares levavam comidas e bebidas.

A segunda casa era a nossa e guarda histórias maravilhosas. Eu estudei no “Mário de Andrade”, na Joaquim Nabuco, desde o jardim de infância, naquela rua muitas meninas eram minhas colegas de escola e crescemos juntas, formei-me em Turismo pela faculdade do Morumbi, hoje Anhembi Morumbi. Meu irmão estudou no Meninópolis e se formou em engenharia pela FEI, seu nome é Linertte. Na frente da minha casa havia uma árvore frondosa onde meu irmão fez uma casa de madeira e um balanço nos seus galhos. Meus primos e primas vinham passar férias em minha casa porque era como se morássemos no interior, brincávamos muito na rua durante as férias e voltávamos para casa cobertos de terra vermelha. Na adolescência reuníamos os amigos do meu irmão, como o Filizola, o Caspal, o Irineu, o Palumbo e tantos outros do Meninópolis, que eram fissurados em Chico Buarque e todo o pessoal da Bossa Nova e do MPB e fazíamos “saraus no terraço”, alguns deles tocavam violão divinamente. Éramos amigos também da turma da rua do Ouro, como a Paula e a Cristina Barotti, o Roney, o Otavinho, os filhos do Shultswenk da Volks, o Gui e o Bilé da farmácia do Sr. Roque Petroni e da Dna Rita. Dávamos bailinhos temáticos e gostávamos de reunir toda a garotada do bairro. Lembro-me que todos os pais tinham medo de dar reunião em casa por causa da “turma do Danúbio” mas, em um baile Hippie que demos, meu pai conversou com o Pedro, que pertencia ao grupo e eles entraram sem provocar nenhuma bagunça e tudo terminou às cinco horas da manhã, de maneira agradável e sem nenhuma ocorrência e daí para a frente nossas reuniões foram coroadas de alegria e paz. O pessoal de cima da Joaquim Nabuco, próximos à Washington Luíz, que freqüentavam a nossa casa eram: o Tony, que era namorado da Paula da rua do Ouro, a Denise e a Marcinha Pupo Prado, a Rutinha, a Karem, o João e a Suely Valente, mais para baixo, próximo a Sto Amaro havia o Marcos Valente, cujo pai era dono da empresa de ônibus que servia o Beatíssima e Meninópolis e da Papelaria Valente. Dos que também faziam parte das nossas relações lembro-me da Ana, do Delei, do Peri e do Checchia que estavam presentes na minha festa de quinze anos e que íamos à todas as festas juninas do Beatíssima, que por sinal eram muito boas e aos carnavais e “mingaus” do Clube Banespa. Tínhamos também uma turma enorme de pessoas que moravam no bairro de Moema e Vila Mariana. Toda essa gente foi muito importante para nós e permitiram que nossas vidas de jovens valesse a pena de ser vivida e guardasse saudades.

Na terceira casa moravam o Sr. Rocha e a Dna. Mercedes com uma sobrinha chamada Idalina e um neto chamado Carlos Alberto Barreto que morava no Rio de Janeiro e passava férias na casa da avó. Foi meu primeiro namoradinho. Quando meu irmão casou comprou a casa deles para constituir o seu lar.

Na quarta casa morava um casal muito peculiar. Ele chamava-se Senhor Fritz e ela Dona Tecla, obviamente alemães. Ele era de compleição pequena e dizia ter sido da marinha, andava sempre com um boné, barba por fazer, camisa listrada e um papagaio eternamente dependurado em seu ombro.

Na sexta casa, foi morar depois de algum tempo, o Senhor Luiz Pereira. Tornou-se muito amigo do meu pai. Trabalhava no INPS e sua esposa era professora, Maria Aparecida Eiras Pereira. Na época em que foi morar na rua era bem jovem e possuía uma lambreta, depois teve muitos carros da moda como um Studibaker e outros carros exóticos. Acampamos muito juntos, do Espírito Santo para baixo conhecemos todos os Estados e até a fronteira do Uruguai, Paraguai e Argentina. Ele era um aventureiro e meu pai gostava de acompanhá-lo. Ele sempre foi muito alegre e guardo nas lembranças momentos hilariantes das nossas viagens, como uma vez que para termos acesso à lugares privilegiados ou conseguirmos combustível durante as viagens em uma época em que ele era controlado, fingia-se de repórter da quatro rodas e tirava foto de todo mundo dizendo que sairiam no próximo número. Por esses e por outros motivos foi muito bom que ele tivesse feito parte das nossas histórias.

Depois vinha as costas da casa do Shultswenk (não sei se é assim que se escreve) que dava frente para a Rua do Ouro, seguida da casa da Neusa Maria Quino, que foi a primeira namoradinha do meu irmão, a mãe dela era contra o namoro e eles se correspondiam usando códigos para que se fossem pegos ninguém pudesse decifrar o que haviam escrito, eu era o pombo correio.
Quase na frente da casa da Neusa, do outro lado da rua, morava a Lídia e a Sidnéia, filhas do Senhor Walter. A Sidnéia foi minha professora de catecismo e fiz minha primeira comunhão na Igreja do Sagrado Coração de Jesus na Avenida Morumbi, como todos naquele bairro. Ao lado da casa dela morava um garoto, que infelizmente não lembro o seu nome no momento, que possuía como animalzinho de estimação um carneirinho preto e andava com ele na coleira para baixo e para cima. Ao lado da casa dele ficava a casa do Sr. Araújo, a Dna Maria e a Wilminha. Em determinada época o Sr. Araújo abriu um poço artesiano no quintal da casa deles e isso mudou para sempre a história de vida dessa família e da própria rua, que hoje é proprietária de grande parte dos imóveis da rua do Níquel. Só que infelizmente o Sr. Araújo não pode gozar dessa época de fartura, pois certa vez ao ir ao banco foi acometido de um mal súbito e faleceu.

No número 114 da nossa rua morava um conceituado e premiado pintor chamado Senhor Hélio Becherini, sua esposa Dona Hermínia e suas filhas, Cibele e Helenice foram muito importante para todos nós a vida inteira. Ele era também amigo de meu pai, até o ensinou a pintar e isso propiciou ao meu pai momentos inestimáveis de relax e prazer. Viajávamos e acampávamos muito juntos. A Dna Hermínia estava sempre presente entre as amigas da minha mãe. Fiz o jardim de infância com a Cibele e fomos grandes amigas até o tempo de adolescentes, depois nos afastamos e cada uma seguiu o seu caminho, nos esbarrando de vez em quando.

A casa seguinte era do Casarré. Filho do humorista vitimado por uma bala perdida no Rio de Janeiro, enquanto dormia em sua cama. O terreno à seguir nós chamávamos de fazendinha. Ali se criava vacas, galinhas, patos e cabras. Havia até uma horta. Às vezes a proprietária levava os animais para pastarem na rua e era muito engraçado ver todos aqueles bichos no meio da rua. Também costumava passar por ali o gado do Matarazzo e os cavalos da hípica de Santo Amaro.

Realmente, era uma época em que todos se conheciam e se respeitavam e conviviam com a falta de asfalto e de iluminação, ansiando por um progresso que pudesse trazer coisas boas para eles. Hoje a rua do Níquel está muito mais moderna, com um condomínio de alto padrão na parte do meio da rua de um lado e do outro a Companhia de Águas fundada pelo Sr. Araújo. A casa da Neusa, do Sr. Walter e do irmão dele, um prédio de três andares e o nosso conjunto de casas continuam no mesmo lugar, porém elas foram reformadas, melhoradas e hoje estão muito mais bonitas, do mesmo lado, no final da rua também foram construídas três casas de alto padrão. A diferença é que hoje ninguém mais sabe quem é quem e não fecham mais a rua para festas juninas, mas o progresso vai a todo vapor.

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