À ressurreição, à renovação

Ontem , SEXTA-FEIRA SANTA, cerca de 21:00h, ouço ao longe o repetitivo som de uma matraca. Seguem-se cânticos sacros, rezas.

Na rua e na esquina da minha travessa com a Leopoldo Couto de Magalhães Jr., vejo uma procissão.

Parada naquele momento, percebe-se o culto de uma das estações da Via Sacra. Fato que há décadas se repete no Itaim Bibi, a Procissão do Senhor Morto.

Cânticos e rezas. Rezas e cânticos. Matracar. Matracar.

Como sempre, o frei Paulo Gollarte inteligentemente pronuncia algumas palavras e canta, e canta, e canta.

Sim é o mesmo frei que faz parte do GMIB-Grupo Memórias do Itaim Bibi. É aquele colaborador que denominou a nossa ação de “os caminhantes”, quando caminhávamos por algumas ruas e locais do bairro procurando identificar e relembrar a importância dos mesmos, no próprio desenvolvimento social e cultural do bairro.

É aquele que jovem veio ao nosso bairro e nunca mais saiu. É aquele padre que esteve por muitos anos como o Páraco na Igreja de Santa Teresa de Jesus.

Mas para mim é aquele que minha falecida mãe Da. Benedita, ex-costureira no Convento do Carmo, na Liberdade, orgulhosamente repetia: "eu costurei as batinas para a ordenação e preparei todo enxoval para a ida do frei Paulo ao Vaticano quando foi estudar Teologia e se tornar um doutor da Igreja Católica"

Segui vagarosa e comovidamente a Procissão do Senhor Morto. Quieto, observando tudo e todos. Pausadamente prossegui pela rua Clodomiro Amazonas.

Ao fundo o triste e repetitivo matracar. O singular instrumento de madeira. O rude, o seco e marcante objeto desse triste e reflexivo ato religioso.

Notei o enorme fervor de alguns remanescentes do antigo Itaim Bibi, misturado com a vontade de dar continuidade a essa respeitosa tradição luso-brasileira sendo avidamente demonstrada por recentes moradores.

Senti a espontânea e ao mesmo tempo carinhosa alegria dos jovens itahyenses.

Apontei a surpresa de outras estranhas pessoas que por algum motivo passavam ou transitavam pelo bairro, mesmo num dia tão santo.

No meio da não tão grande multidão, destacavam-se dois blocos.

O andor da Nossa Senhora das Dores, carregado tristemente por quatro fiéis e um outro com o Cristo Morto, este antecedido por figuras com vetes romanas e mulheres de preto. Ladeando oito lindas jovens, todas de roxo.

Triste caminhar, mas ao mesmo tempo comovente, fazendo-nos refletir sobre as nossas ações, por todo percurso.

Lá na esquina da Clodomiro Amazonas com a Tabapuã avisto a escura igreja. Fechada, luzes apagadas.

Vagarosamente são abertas duas portas laterais.

Apenas um foco iluminando o interior da nave religiosa.

Repetitivamente, ao fundo, o mantra: VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, … é a voz do nosso jovem e por isso mesmo com grande força, o vigário, o Frei Rothmans Darles de Campos.

Incrível, nele sinto a chama da RENOVAÇÃO.

Na mente cenas da minha juventude quando acompanhando e participando de toda a programação da igreja, visualizava um futuro cheio de sucesso. Frei Constâncio, frei Roberto, frei Tadeu e outros.

Na Paróquia de Santa Teresa de Jesus, fui desde Cruzado, Coroinha, Congregado Mariano, Legionário de Maria, terminando nos Encontros de Jovens-De Collores. Quanta saudade.

No outro lado da calçada avisto a mãe do meu eterno amigo Dagoberto de Castro e me lembro do carismático Sérgio Balotta. Que Deus os tenha ao seu lado.

VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS,…

Nós, os então caminhantes paroquianos somos convidados à entrar na igreja.

Apenas um foco de luz. De resto a penumbra.

Um ar de comoção toma conta de todos.

Poucos entram…, o frei Paulo insiste: podemos entrar na igreja, é a Casa do Senhor Deus que nos espera.

Entramos vagarosamente enquanto a Verônica cantava, cantava e cantava.

Abre-se a imensa porta central. Madeira maciça.

Primeiro vai o andor com a Nossa Senhora das Dores. Em seguida, o triste andor sendo carregado.

Fazendo-o galgar os poucos degraus da igreja, levado a meia altura, os homens itahyenses. O Nosso Senhor Morto.

Me dirijo à frente de todos. Fico na primeira fileira dos bancos de madeira sempre lustrados, envernizados.

Lembro do meu querido pai, o velho Orestes, que nas Quinta-Feiras Santas ia junto com o Sr. Orlando e outros Marianos, limpar e lavar toda a igreja, aquela do prédio da rua Tabapuã. Hoje o local é um centro gastronômico, ou cozinha preparatória de todo esquema FASANO.

Na agora não tão nova igreja, no ponto principal da mesma, com a parede central meio coberta por um imenso pano roxo, vejo um grupo de jovens. É o Núcleo Teatral do Grupo de Jovens. Logo penso, vão encenar a Paixão de Cristo.

Gravada ouço uma linda voz feminina iniciando um lânguido canto.

Penumbra. Só um foco de luz vindo do alto rodeia todo o espaço.

Música forte, emotiva, tangente.

Vestidas com uma malha preta, com os rostos pintados de branco, belas meninas encenam, dançam. Rodopiam sob o foco de luz.

De resto a penumbra.

Um jovem veste um manto. Parece Jesus Cristo.

Outros o chicoteiam, chutam-no, derrubando-o.

No espaço escuro apenas o foco de luz.

Abruptamente arrancam-lhe as vestes.

Cai. É erguido, levantado e de braços estendidos como o Cristo Redentor simbolicamente é crucificado.

Engulo seco. Choro por dentro. As pernas tremem.

Ninguém se move. Atentos. Perplexos!!!

Carrega-se um corpo. Colocam-no na mesa, no altar principal.

Silêncio total. O corpo, o Cristo.

Lateralmente percebo a esquife.

Frei Rothmans pede para que acendamos uma vela.

Aparecem luzes de celulares, isqueiros acessos.

Abre o cenário como se fosse uma gruta de pedra.

Ali a escultura é silenciosamente depositada.

Fecha-se o vão.

VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS, VINDE SANTO DOS SANTOS,…

* Sábado, dia 07 de abril de 2007, às 10h., Hora de Maria. As 19:30h., Celebração Solene da Vigília Pascal. Domingo, dia 08 de abril de 2007, missas da Páscoa da Ressurreição. É o que anuncia o jovem frei Rothmans.

Saio da igreja pensando…, aí esta a renovação do bairro, o retorno ao convívio cultural, social e religioso.

O amor leva à ressurreição.

Helcias Bernardo de Pádua
Grupo Memórias do Itaim Bibi/SP
abril/07 – [email protected]
11-9568.0621