A receita e a cabeça do úmero

Naquela época, vou dar-me o prazer de recordar, o tempo não me parecia tão lento como agora. Já estando aposentado, resolvi escrever alguma coisa para combater o tédio e viver a vida alegre do celibato que até hoje nenhuma sombra de preocupação empana. Hoje, carrego agilmente o fardo dos meus 70 anos de idade. Muitas vezes, sucedeu-me adormecer vestido e acordar depois de um longo sono. Embora aparentemente bom, o braço direito continua a incomodar-me. As variações de temperatura costumam, às vezes, afetar a cabeça do úmero. O tempo e as densas rajadas do vento, o chuvisco fino e intermitente de que estão plenas nas nuvens tudo me incomoda e mortifica reavivando a dor no ombro direito.

Já faz algum tempo, que me acodem persistentemente à memória 16 anos passados, sucedeu-me um imprevisto acidente. Depois de tomar um café no bar do Sujinho na Rua Treze de Maio, esquina da Praça Amadeu Amaral na Bela Vista, tinha que ir trocar uma receita médica. A cólera incendiava-me o sangue. Como era possível ele ter se enganado no receituário, principalmente na dosagem do medicamento. Aquele valor não existia. Ou eram cinco miligramas ou dez miligramas. Não havia nenhuma fórmula com três miligramas no componente do medicamento como o médico havia prescrito na receita. Era realmente um erro grotesco do profissional. Enfim, foi por essa razão que eu segui até a Praça Amadeu Amaral para substituir a receita errada. Antes, porém, não tivesse feito esse caminho naquela tarde fria de julho.

Como tantas outras vezes, senti um desalento, uma infinita desesperança e o moinho da imaginação se pôs de novo a girar. Tudo, até a sola de meu sapato gasto, a água com graxa escorregadia de um hidrômetro do prédio tinha contribuído para o acidente. Um dos empregados do Chico da farmácia, meu conhecido, passou por mim e me cumprimentou. Fiquei um instante calado para ocultar minha contrariedade de subir os quatro andares do prédio porque o elevador estava quebrado.
Lembro-me nos menores detalhes desse dia de infortúnio e adversidade que me esperava. Depois de adentrar no saguão do prédio, sucedeu-me escorregar no degrau liso da ardósia e eis o tombo sem nenhuma possibilidade de espalmar com as mãos no chão para evitar os efeitos da brutal queda. O ombro direito bateu com toda força no piso molhado e escorregadio. Fiquei por um instante estatelado no chão; lembro-me apenas de um casal que tentou me socorrer. Não conseguia erguer-me sozinho do chão porque a dor era intensa, como uma espécie de dormência em todo o braço. Permaneci imóvel, sentado em uma saliência do jardim do prédio esperando ceder à dor. Nada. Como reflexo, doía-me também as pernas, apesar de ter batido só com o ombro no chão.

– Está doendo, mas logo há de passar – disse para a moça da farmácia tentando esboçar um sorriso de gratidão por ela ter me ajudado a erguer-me. A moça parecia espantada com o meu otimismo apesar da dor, mas logo torna a me perguntar se eu precisava de alguma ajuda. Seguiu-se um momento de ansioso silêncio durante o qual resolvi mais uma vez não me deixar abater pela dor e prossegui: – Por favor, chame um táxi. Por sorte, logo a frente havia um ponto. Quando adentrei no carro, sentei-me no banco da frente e disse para o motorista que me levasse diretamente para o Pronto Socorro do Hospital das Clínicas. Tinha uma suspeita de que havia quebrado ou fraturado o osso do braço. Estava ali parado de fronte ao guichê esperando para fazer a ficha com os meus dados pessoais. Era a minha primeira noite de prova. Iria ficar internado porque o caso requeria uma cirurgia de emergência. Eu havia esfacelado em quatro pedaços a cabeça do úmero e tinha que submeter-me a um complicado ato cirúrgico. Por sorte, havia um leito disponível e fui encaminhado para um quarto na enfermaria no segundo andar do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas.

Uma vez ali instalado, puseram uma placa no leito da cama: "Jejum". Seria operado assim que o dia clareasse conforme o médico do pronto socorro me tinha dito. Antes disso, porém, tinham que fazer uma avaliação do meu estado clínico geral de saúde porque eu tinha entrado de emergência. Iria tomar anestesia geral e precisava estar em condições favoráveis para a cirurgia. Segunda noite de vigília, não pude ser operado naquele dia, porque estava ligeiramente resfriado e o médico clínico que me atendeu já no leito tinha me recomendado uma inalação e umas chapas dos pulmões para saber das minhas reais condições de saúde.

Às vezes não acreditamos nas mazelas do destino. O rapaz, médico novo, o mesmo que me havia recomendado a inalação e as chapas dos pulmões, aparentando uns trinta e cinco anos de idade, havia naquele mesmo dia, durante a noite, ido jogar futebol de salão no clube Hebraico e sofreu um infarto fulminante e faleceu. Uma tragédia não prevista. Terceira noite de tormento. Foram três noites passadas com muita dor e a sensação do medo cada vez mais se apoderava da minha mente como uma estranha vibração, quando ainda desperto, porque o sono não vinha. Era o medo da incerteza do dia que se aproximava. Através da janela do quarto punha-me a olhar para a torre da televisão no alto da Avenida Paulista, para distrair o espírito. O ar estava saturado de um cheiro forte de remédio e desinfetante. Silêncio absoluto.

A uma volta do corredor abriu-se uma porta e saiu um carrinho puxado por um homem magro e pálido no qual ia uma forma humana debaixo do lençol. Um instante apenas abriu-se a porta do elevador de cargas e o carrinho sumiu rapidamente. Para onde estariam levando aquele corpo? Com certeza para a câmara mortuária. Ali era difícil acontecer fato semelhante, pois era a ortopedia do hospital uma ala de pessoas acidentadas como pernas quebradas, braços esfacelados, alguns tórax esmagados entre costelas quebradas, mãos decepadas, gente baleada na boca exigindo a presença do especialista buco-maxilar. Porém, o acontecimento de morte ali não era muito frequente.

Depois de aguardar sete dias, finalmente fui operado. A cirurgia durou aproximadamente umas seis horas, depois de colocarem um pino metálico de titânio dentro do osso do braço substituindo a cabeça do úmero por um encaixe de metal, fixado por um fio especial que tolhia parcialmente os movimentos. A fisioterapia não se fez muito por esperar. Depois da drenagem do sangue, no dia seguinte ao operado, apareceu uma moça e já começou ali mesmo alguns pequenos ensaios dos movimentos em sentido vertical, fazendo lentamente um levantamento discreto do braço operado. Após dez dias de internação recebi alta do hospital. Fiz fisioterapia por quatro meses no próprio centro de reabilitação da Ortopedia e Traumatologia com exercícios moderados de levantamento do braço operado.

Hoje, decorridos 16 anos praticamente, estou relativamente curado; apenas sinto certa restrição de movimentos, porém, não tive nenhuma rejeição da prótese colocada. Como se vê, de uma simples troca de receita causou-me um estrago perene. Hoje, minha prótese da cabeça do úmero me acompanha como uma amiga inseparável, fiel, companheira nas minhas caminhadas pela cidade. Mas como disse inicialmente, apesar das dificuldades, carrego ainda, com certa agilidade, os meus 70 anos de idade que, no momento, nenhuma sombra de preocupação empana.

E-mail: [email protected]