Aconteceu numa tarde. Estávamos em aula no Colégio Paulistano, onde eu fazia o último ano do ginásio, com quinze anos. Da professora não me lembro o nome, só que era jovem e que ficou apavorada, como todos nós.
A classe tinha janelões imensos, dando para o jardim e para a rua. Estávamos, naquela tarde, como sempre, falando sem parar uns com os outros – os meninos, do outro lado da sala, paquerando as meninas -, enquanto esperávamos a professora chegar. Era uma tarde comum, de sol, céu azul, nuvens, que víamos das janelas.
De repente, alguma coisa começou a mudar. Devagarzinho, tudo lá fora e dentro da classe começou a ficar amarelado. Olhamos para fora, o céu ainda era azul, mas havia um filme amarelado sobre tudo. Quase cor de chá fraco. Dentro da classe, o mesmo aconteceu, e foi ficando ainda mais escuro. A professora, que a este ponto já estava em classe, parou de falar o que havia começado. Foi olhar pela janela. Voltou, olhou para a classe atrás de uma nuvem espessa amarelada, enquanto perguntávamos em voz alta: “Professora, o que é isso?”.
Podíamos sentir o medo que havia tomado conta dela também. Nunca havíamos visto nada igual; não era uma escuridão normal anunciando chuva, não era cinzenta, era perfeitamente amarela.
A professora saiu correndo para chamar a diretora e ambas ficaram ali, juntas, sem saber o que dizer, olhando, ora pela janela, ora para os alunos, que a este ponto quase desapareciam atrás da coisa. Sei disso porque não conseguia mais ver as feições da minha colega do lado. Foi simplesmente horrível.
Passaram-se uns cinco minutos, em que ninguém se mexia. Lembro-me do pavor que tomou conta de nós. Alguns diziam que o fim do mundo chegara, outros que era coisa de disco voador.
Pouco depois, a nuvem amarela começou a se levantar e desapareceu. Lá fora, o sol continuava forte e não houve chuva.
Esta narrativa é verídica, aconteceu em 1966. Será que alguém se lembra da nuvem que envolveu São Paulo? Ou será que a coisa foi mais local? Até hoje nunca recebi uma explicação para esse fenômeno.
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