No último ano do primário, feito no Grupo Escolar Padre Manoel de Nóbrega, houve uma encenação artística, musical e humorística dirigida pela professora Dona Laira, que em minha opinião era a professora mais bonita de toda a escola, ela era uma loira perto de 35 anos, super simpática e charmosa, não havia quem não admirasse a sua beleza.
Minha mãe era cozinheira de uma pensão que ficava vizinha à escola onde hoje está a caixa d’água da Sabesp, bem em frente ao Cemitério da Freguesia do Ó. Essa pensão era um casarão com um terreno enorme e imensas árvores e lindo jardim. O terreno, imagino, possuía uns oitenta metros de frente por 130 de fundos e era bem paralelo ao prédio onde está o grupo escolar. Sua frente era para Avenida Itaberaba e os fundos para a Rua Coronel Tristão.
Eu saía da escola às 11h00 e passava minhas tardes nesse casarão, assistindo, por cima do muro, o recreio das meninas e os ensaios do teatro dirigidos pela professora Dona Laira. Tanto vi que resolvi participar, e acabei entrando e ensaiando junto com o grupo dos festejos do final de ano.
E assim acabei fazendo dupla com uma menina, mais ou menos da minha idade (perto de doze anos), dos ensaios da peça que seria levada no encerramento do ano letivo e a consequente entrega dos diplomas do primário para os alunos do quarto ano. Resultado: nasceu em mim uma paixão juvenil pela menina que no ensaio contracenava comigo.
Ela morava na Rua Antonieta Leitão, bem atrás de um posto de gasolina que fazia frente com o antigo Cine Clipper, que hoje não existe mais e em seu lugar surgiu o Banco do Brasil. Descobri que ela ia ao cinema aos sábados e às vezes aos domingos, então passei a engraxar sapatos no largo da antiga caixa d’água, do Departamento de Águas e Esgotos (construção essa que lamentavelmente, juntamente com um velho marco do local da partida das Bandeiras, que em busca de riquezas desbravaram o Brasil, foram demolidos para dar lugar ao "progresso" e que ficava bem no centro do Largo da Matriz Velha), como também ia tomar conta de carros em frente à pizzaria do Bruno Bertucci, ao lado da igreja da Matriz da Freguesia, que na época era um grande salão de madeira e considerada mais conceituada de São Paulo e frequentada pela alta sociedade e celebridades da capital.
Era fácil em duas ou três noites juntar os trocados que davam o direito a pagar o meio ingresso do Cine Clipper, Cr. $ 4,50 cruzeiros bem velhos saídos dez anos antes do velho conto de réis.
Juntava o dinheiro e, assim, todo o sábado à noite e domingo de matinê, lá estava eu no Clipper esperando encontrar a Dagmar, com meu terninho branco de linho e um lindo sapato de couro de crocodilo que herdei de um primo da mesma idade, que tinha mais posses e que graças a Deus crescia mais depressa do que eu.
Foram várias semanas e nada de Dagmar, até que um dia soube, por intermédio de um vizinho dela, que a mesma ia ao cinema aos domingos à noite.
Convidei um amigo, o Flávio de Freitas, mais conhecido por Dedé, e juntamente com outro amigo, o Laurindo, fomos todos faceiros ao cinema encontrar aquela que eu comentava ser a minha namorada (só que a mesma não sabia). Descemos a Rua do Macaquinho, onde havia a chácara do Veja, que estava sendo loteada, as terras todas reviradas por tratores, e a terraplanagem, somada às chuvas, deixaram aquelas terras vermelhas, lisa e escorregadias.
Nós usamos esse atalho porque o mesmo nos levaria direto a Rua Javoraú, que era asfaltada, e sairíamos em frente ao antigo e famoso Bazar Buonafina, que pertencia ao pai do meu amigo e o cara mais alto da Freguesia, o popular Miguelão (mais de dois metros de altura), figura conhecida de todo o bairro por ser muito engraçado e alegre. Esse bazar ficava em frente a IRLENP, fábrica de filtros e retentores para óleo do cárter de automóveis bem na esquina da Rua Javoraú com a Estevão Furquim, onde passou a funcionar feira livre da Vila Albertina, que no passado era montada no Largo do Clipper e parte da Bonifácio Cubas, mas, desde a década de 60, a mesma passou a ocupar esse novo local até os dias de hoje.
Bem, mas foi aí nesse atalho que aconteceu a minha tragédia: ao pular uma valeta criada pela erosão das águas da chuva, escorreguei e fiquei com meu terninho de linho 120 totalmente manchado de barro vermelho, que mesmo lavando não é fácil de tirar.
Meus dois amigos riram muito da minha cara de infeliz, fiquei com cara de torcedor de futebol que vê o seu time cair para a segundona (ou seja, cara de torcedor da Portuguesa).
Então, voltei para casa, tomei um banho, e nunca mais soube da Dagmar.
Na semana seguinte, passei pela rua em que ela morava, fiquei sabendo que a danada e sua família haviam mudado sei lá para onde e sua ex-casa, um ano depois, deu lugar à ampliação do posto de gasolina.
E de manhã bem cedo tive de ouvir a voz de minha mãe falar, bem pertinho dos meus ouvidos:
– Não adianta fazer essa cara de AQUI JAZ não, menino, levanta que já são sete horas e tá na hora de ir para o colégio.
Depois de tudo isso, numa segunda-feira, quem vai estar a fim de estudar???
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