Meus pais se casaram em fevereiro de 1949. Mas antes, em 1928, uma irmã de minha mãe (tia Pina) já era casada com o irmão mais velho de meu pai (tio Antonio). Foram morar na Mooca.
Mas 1954, devido a um problema cardíaco, tia Pina veio a falecer, deixando quatro filhos (três homens e uma mulher) além do viúvo. Minha prima, ainda menor (creio que com 12 ou 13 anos), ficou com a incumbência de cuidar da casa, dos três irmãos e do pai.
Minha mãe, apesar da pouca saúde (teve uma tremenda descalcificação com o meu nascimento), tinha mania de ser a assistente social da família e se propôs a ir uma vez por semana (nas quintas-feiras) para ajudar a menina nos afazeres domésticos. Portanto uma vez por semana fazíamos o percurso Vila Mariana/Mooca.
Eram tempos difíceis, nem todo mundo tinha máquina de lavar roupa. Era um tanque imenso de trouxas, contendo vestimentas, lençóis e fronhas, toalhas; em sua maioria dos rapazes que eram adolescentes. Tinha muito pano para lavar e passar. Mamãe se dispunha a dividir esta labuta.
A Mooca era um bairro popular, em sua maioria, composto de italianos e ferroviários. Além dos vendedores de frutas e verduras com suas cestas e carroças, havia também o vendedor de batata assada, o de mariolas, o de biju batendo sua maritaca e o vendedor de leite de cabra (que retirava o leite fresquinho, quentinho e na hora). Eram todos ambulantes que desfilavam pelas ruas vendendo as mercadorias para sobreviver.
Eu, com três para quatro anos, era um garoto criado em casa, classe média, curioso. Nunca havia provado leite de cabra (que é um produto fortíssimo, gorduroso). Por causa da doença de minha mãe, fui amamentado com mamadeiras de leite em pó, só indo provar o leite de vaca engarrafado depois dos dois anos.
Ao ouvir os gritos do mascate: "Olha o leite de cabra! Leite de cabra fresquinho, quentinho, tirado na hora!!! Olha O leite de cabra!", grudei na saia de minha mãe, pior do que carrapato, pedindo para que ela comprasse.
Não conseguindo se livrar do chato que eu era, a progenitora só teve uma alternativa: comprar um copo do tal leite.
Comecei a ladainha "deixa eu tomar" e minha mãe pôs o leite em cima de uma mesa, dizendo que eu só iria provar após o almoço. Nem é preciso dizer que, no primeiro vacilo, entornei o copo de leite goela adentro.
Em menos de duas horas fui acometido de uma tremenda disenteria, que não havia o que estancasse. Fui levado para casa com crises intermitentes de diarréia. Meu tio Emílio, que era diretor do Hospital Municipal, logo percebeu a gravidade do caso: eu estava desidratando rapidamente e, mais do que rápido, providenciou minha internação.
Em três dias perdi quase cinco quilos. Mas graças à dedicação de minha mãe e aos cuidados médicos fui salvo a tempo.
Emagreci muito, Fiquei com uma sequela que até hoje tenho o intestino muito sensível.
Mas o mais importante foi a lição que desde pequeno aprendi: a precipitação pode levar uma pessoa literalmente à mer…!
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