Éramos nove filhos. Seis meninas e três meninos.
Fomos criados por um pai enérgico e disciplinador.
Nossa mãe era submissa, como a maioria das mulheres daquela época, mas tinha um jeitinho especial em driblar a rigidez do nosso pai, e isso nos ajudou muito.
Ele, tempos depois, com todos já criados, confessou-nos o medo que tinha em perder o controle sobre nós. Afinal, nove filhos em idades diferentes, dava para assustar.
Para se ter uma idéia, quando nossa irmã mais velha casou-se aos 18 anos, a caçulinha tinha apenas 4 meses. Sem contar que era uma época de grandes mudanças (1960).
Para abrigar tanta gente, fomos morar numa casa que nosso avô materno comprou na Penha de França, por volta de 1927, e que acabou ficando como herança para os filhos (meus tios).
Tempos depois, meu pai comprou a parte dos herdeiros, e ali, naquele grande sobrado, criou a todos nós.
Era um sobrado, que ficava na esquina de um pequeno largo, onde brincávamos com todas as crianças da rua.
Apesar da casa ser muito grande, era muito antiga, e nosso pai teve de fazer algumas reformas para nos dar mais conforto. Tínhamos um porão, um quintal, varanda… e tantos cantos internos que, até no inverno e dias chuvosos, brincávamos sem nos sentir entediados.
O quarto das (seis) meninas era muito grande e parecia um quarto de hospital, com várias camas cobertas por colchas brancas. Nem sei como nossa mãe dava conta de lavar tanta roupa sem as modernidades de hoje
Para tudo funcionar, todos nós tínhamos funções. Os meninos buscavam o leite e as seis bengalas (diárias) de pão para o café da manhã, além de acompanhar nossa mãe na feira e nas compras do armazém. As meninas, cuidavam da arrumação da casa e ajudavam também com o "bebê da hora". Pois lá em casa sempre tinha um recém-nascido.
Lembro-me que para o sustento da "tropa" eram necessárias duas feiras por semana. A maior parte das compras eram entregues pelos feirantes, pois ninguém conseguiria carregar… uma caixa de laranjas, nove quilos de tomates, um cacho de bananas, um engradado de ovos… etc…
Tínhamos também nossa hora de recreação. Depois dos deveres, saíamos em disparada para a rua, onde nos divertíamos juntos aos coleguinhas. Fazíamos também muita "arte" e depois… ficávamos de castigo como todas as crianças.
Era uma casa alegre, principalmente aos domingos.
Quando chegávamos da missa, já sentíamos o aroma delicioso que vinha da cozinha. Nossa mãe preparava o almoço e ainda cantava enquanto cozinhava. Às vezes, nosso pai pegava o violão e todos nós entrávamos na cantoria. Os vizinhos até pensavam que era uma festa.
Fomos bem criados pelos nossos pais, graças a Deus. E hoje, quando conseguimos juntar todos (irmãos, netos, sobrinhos) sempre recordamos essa época e tudo ainda parece uma festa.
Infelizmente, agora, somos apenas sete, pois dois irmãos, assim como nossos pais, estão ausentes por força divina, mas fazem tanta falta que chega a doer.
Amigos, comentei um pouco de minha estória familiar, porque sei que hoje seria muito difícil criar nove filhos mesmo numa cidade como São Paulo.
Um abraço a todos / Bernadete.
e-mail do autor: [email protected]