Todos os dias, às oito horas da noite, o Fagundes saia do emprego onde trabalhava no centro novo de São Paulo. Era balconista de uma loja de calçados na Rua Barão de Itapetininga. Como de costume, atravessava a Praça Ramos de Azevedo, entrava na Rua Xavier de Toledo e subia até às confluências da Rua da Consolação com a Rua São Luiz.
Antes, porém, se desviava do trajeto e parava num bar na Rua Bráulio Gomes, quase esquina com a Rua Sete de Abril, debaixo do Edifício Vicentina. E como fazia por costume, entrava lá e pedia um café expresso feito numa daquelas máquinas italianas.
O Fagundes era um assíduo frequentador consulente da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, da seção Circulante. Sempre que podia, tirava alguns livros e levava-os para casa para lê-los e devolvê-los no prazo máximo de quinze dias. Depois de verificar o carimbo no prazo de devolução, tinha que trazê-los de volta impreterivelmente no dia estipulado, no seu cartão de matricula. A coisa era automática. Caso não houvesse nenhuma procura por aqueles livros que ele levara, o prazo podia estender-se por mais quinze dias.
O Fagundes já se havia acostumado com aquela rotina. Afinal das contas, já frequentava a Biblioteca de muita longa data. Conhecia todos os costumes de quase todos os funcionários, desde a recepção na portaria até a dona Etelvina, bibliotecária chefe encarregada da seção Circulante.
Numa noite, o Fagundes chegou um pouco mais cedo na Biblioteca. Com certeza a dona Etelvina aceitaria o seu convite para tomarem um café no boteco da esquina da Praça Dom José Gaspar. Estavam em meados do mês de março. E março, como sempre, costuma regalar a natureza com os últimos sóis do verão. Naquele dia, porém, o tempo estava nublado ameaçando chuva. Soprava um vento fraco, vindo do mar em direção do continente com uma brisa de noroeste levemente úmida, porém, não fria.
– Amanhã. – pensou – Como o tempo passa rápido, já estaremos novamente no outono. Convido-a para o café.
Dona Etelvina não se fez de rogada. Aceitou o convite. Caminhavam pelo calçadão em direção à Praça Dom José Gaspar. O Fagundes, antes de tudo, consultou o bolso. Tinha ainda cinco cruzeiros, o troco que lhe restou do café expresso. Dava para pagar os dois cafés e ainda lhe sobraria alguns minguados trocados para mais tarde comprar um lanche.
O Fagundes vivia pendurado em dívidas. Vivia sempre pensando como a vida de trabalhador comissionado era muito difícil. Na maioria das vezes, estava sempre na pindaíba. O que ele ganhava, mesmo com as horas extras que fazia, não era o suficiente para convidar uma moça ou namorada para um jantar num bom restaurante do centro da cidade. Tinha que se limitar no mínimo a um passeio pelas ruas sem ter que pegar nenhum meio de transporte coletivo que pudesse onerar ainda mais o seu já minguado bolso raspado. Efetivamente, não tinha o suficiente para pagar a condução de duas pessoas. Por isso, não se arriscava a ter qualquer relacionamento ou compromisso mais sério com nenhuma moça que conhecia.
Naquela noite, porém, aconteceu o imprevisto. Cruzando com eles em sentido contrário da praça, vinha Felicia, filha de uma funcionária da seção de artes da Biblioteca Municipal. A dona Etelvina apresentou a moça para o Fagundes, e vice-versa.
– Faça-nos companhia, Felicia – disse dona Etelvina olhando para a moça. – Vamos tomar um café.
O Fagundes enregelou. Mexeu disfarçadamente no bolso da calça para ver se o dinheiro dava para pagar a conta. E se a moça ou a dona Etelvina pedissem algo mais, a coisa ficaria difícil. Estaria, na certa, irremediavelmente perdido. Portanto, o que fazer? Com certeza, iria passar vergonha.
Esse pensamento começou a martelar no seu crânio. Quase entrou em pânico. Porém, logo se acalmou e se recompôs rapidamente.
– Ora essa, – pensou – se não desse para pagar a conta, pediria emprestado para a dona Etelvina.
Mas não foi preciso. A moça se limitou a pedir um café que veio acompanhado de um tabletinho de chocolate, tudo incluso no preço final da conta.
– Ufa, que alívio! – pensou.
Agora já mais tranquilo, notou com mais calma a presença da moça. O Fagundes lançou um olhar de admiração para ela. Felicia tinha efetivamente um perfil perfeitamente acabado. Ela usava os cabelos compridos, apanhados em duas longas tranças de um castanho dourado que circundavam a cabeça ocultando-lhe o rosto miúdo e levemente triangular. Eles formavam uma moldura escura que mais fazia ressaltar a palidez quente do rosto, à luz misteriosa de uns grandes olhos de um azul esverdeado.
O olhar dela parecia irradiar uma perfeita serenidade. Estava ela ali parada, com a fresca boca de lábio superior levemente sobreposto ao inferior, numa expressão infantil de amuo e de capricho. Usava um vestido claro, de corte um pouco masculino que a tornava mais esbelta e mais sutil ainda.
O Fagundes ficou ali, embasbacado, olhando a moça com uma expressão misteriosa e enigmática. Realmente, Felicia era uma moça vistosa e muito bonita. Depois de alguns minutos de caminhada, já estavam de volta, chegando ao hall de entrada da biblioteca. As despedidas foram breves, sem muitas explicações. Encontrar-se-iam em uma nova ocasião. Um dia quem sabe, quando a situação financeira permitia-lhe oferecer uma oportunidade de frequentar um bom restaurante, e depois assistirem a uma fita na Cinelândia, especialmente no Cine Marabá na Avenida Ipiranga.
– Eta topada azarada. – pensou.
Perder uma moça letrada, tão bonita, era muito azar. Que remédio, senão se conformar. Mas tinha toda a culpa do mundo. Por que não procurava outro emprego melhor?
Olhou para a moça da biblioteca à sua frente, pela segunda e derradeira vez. Despediu-se dela contrafeito e constrangido. Ao se afastar, chutou uma lata na rua, olhou com desdém para a fachada da biblioteca circulante, cuspiu a saliva que lhe inundava a boca e seguiu adiante rua afora com os olhos vermelhos de tanta frustração e raiva.
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