A janela

O tempo passa e o mundo se transforma de maneira sutil sem que o percebamos, onde existia casas hoje há prédios, aparece uma praça, uma nova rua e assim vai ocorrendo a transformação, então procuramos na memória, aquele lugar que não existe mais.

E assim foi comigo, achei na lembrança velha moradia, casas coligadas e pequenas, de entrada lateral, jardim, quintal, composta de um quarto apenas, sala, cozinha com fogão a carvão, sem pia e um puxadinho com tanque, poço e banheiro fora.

Lá vivi minha infância e se localizava na Av. Imperatriz Leopoldina, na velha e querida Vila Hamburguesa, desta também amada cidade de São Paulo. A janela do quarto dava de frente para a rua e era nosso teatro natural, e de lá víamos eu e minha adorada mãezinha Maria, os poucos pedestres a passar, a chuva molhando a rua de terra batida, as plantas do jardim, o céu estrelado a brilhar quase sem poluição… Debruçadas na janela conversávamos sobre tudo com nossa vizinha que também participava da conversa da sua janela.

Foi lá que aprendi muito e também sobre superstições, minha mãe falava que passar embaixo de escada dava azar, quando dos temporais tínhamos que cobrir os espelhos, esconder as facas e as tesouras de meu pai, pois ele era alfaiate; se a coruja cantasse na porta ou telhado, era prenúncio de que alguém iria morrer!

E por coincidência ou não, certa noite notamos uma coruja pousada no fio de eletricidade, bem em frente a nós, e de repente fez um voo rasante e quase entrou em casa, dai curto espaço de tempo morreu um tio meu, irmão de minha mãe.

Hoje não mais ensinamos essas coisas aos nossos filhos ou netos, foi coisa do passado, em que a inocência acompanhava os adultos daquela época, que eram rígidos e retraídos com seus sentimentos verdadeiros e acreditavam em tudo o que se falasse.

É, os tempos mudaram e muito, as crianças de hoje não acreditam em nada disso, são mais inteligentes, com todas as opções que têm e, por conseguinte, nada de superstições. A educação no lar mudou, o colóquio entre pais e filhos é escasso, os ensinamentos no lar rarearam, poucos têm uma religião, pois os computadores, celulares e TVs tomaram o lugar de conversas na sala com todos reunidos, a mostrar que o amor e ensinamentos devem imperar em todas as situações.

Sei que devemos olhar para a frente e não ficar nos debulhando no passado, mas nunca esquecer o que nossos pais no ensinaram, dar amor, ter compreensão e fazer as escolhas certas para o novo tempo, e as lembranças guardá-las na memória. Abraços as todos e feliz 2013.

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