Eu tinha 11 anos (1958) e, ainda que "pequeno", quando saía para além da Vila Mariana, onde eu morava, gostava de apreciar os novos horizontes, ou seja, reparar e comparar aquilo que de "novidade" eu via, em relação ao meu bairro: as ruas, os logradouros, veículos, arborização, as pessoas, fábricas… Assim, para exemplificar, muito de vez em quando, íamos para os lados da zona Leste. A "viagem" descortinava a cidade para mim, mostrando coisas tão simples – mas que eu "grudei" na retina até hoje.
Morávamos na José Antônio Coelho, em frente à Caravelas. Daí, íamos até a Tutóia, de onde saía uma linha de ônibus da CMTC, que pouco durou: Paraíso-Tatuapé (lá nem era Paraíso!). Bem defronte do então "terreno", amplo, vazio, local em que seria depois erguido o prédio do atual distrito policial. Nesse terreno, instalavam-se parquinhos de diversão, periodicamente.
O ônibus subia a Tomás Carvalhal, à época rua sossegada e estritamente residencial, de paralelepípedos. Contornava a Praça Rodrigues de Abreu e, em frente ao "monumental" prédio da Brahma (que ocupava todo um quarteirão), de chaminés expelindo fumaça branca e cheirosa, o ônibus ingressava na Vergueiro. Rua essa, então, estreita, também de paralelepípedos, com bondes e demais veículos em mão dupla.
Passando o Cine Paulistano, um viaduto – que "viaduto" mesmo, nem era! O Viaduto Santana do Paraíso, com seu belo gradil de ferro e uma "vertente" (encosta) para a Rua Santana do Paraíso, nada mais era do que a própria Vergueiro, em desnível com a rua citada. Aliás, quando da duplicação da Vergueiro, por ocasião das obras do metrô, a Rua Santana se resumiu a um ínfimo trecho. Chocolates Sönkesen, lembram?
Uma foto de jornal, de 1961, jornal Última-Hora, mostra um Papa-fila da CMTC dependurado nesse "viaduto", quase mergulhando no espaço, ao romper o gradil. Felizmente, só "quase"!
Bem, de volta ao passeio, o Paraíso-Tatuapé chega ao Centro, à região "Cidade", como indicavam os letreiros de ônibus à época. "Cidade" era qualquer região central, como a Sé, João Mendes, Anhangabaú, Praça Ramos… Pelo menos para as linhas de ônibus. Àquele tempo, muitos lembrarão, bondes, carros e ônibus passavam da João Mendes para a Clóvis Bevilácqua, através da Rua Onze de Agosto – hoje calçadão. A Clóvis não era "gêmea" da Sé: eram separadas, independentes, por todo um quarteirão, de prédios, como o Palacete Santa Helena.
Salvo equívoco meu, à época da gestão como prefeito, de Adhemar de Barros (1957-1961), foi instalado na Clóvis um viveiro de pássaros, além de um belo jardim. Essa praça era um grande "terminal" de ônibus que se destinava principalmente à zona Leste, mas também para os lados do Alto do Ipiranga, Mooca, Vila Prudente e São João Clímaco. Além de uma linha para Guarulhos.
Falar de Praça Clóvis nesse tempo é lembrar de duas referências importantes: o Palácio da Justiça, tal qual hoje imponente, e o tradicionalíssimo Corpo de Bombeiros, então em prédio bem menor que o monumental de hoje. Em um canto da praça o balão de bondes. Bondes que desciam a Rangel Pestana, em via exclusiva, no meio da Avenida Rangel Pestana. Aliás, lá do topo, ou seja, do começo da avenida, se avistavam as muitas chaminés, do Brás em diante. À época, na ausência de prédios altos, a vista alcançava bom pedaço do começo da zona Leste.
O ônibus Paraíso-Tatuapé prosseguia; meu passeio estava longe de atingir o objetivo, ainda… Mas, para meu "encanto", esse pouquinho da cidade, para mim novidade, valia a pena. Era um moleque se impressionando com o gigantismo da Paulicéia e sua diversidade de paisagens… E viva São Paulo!
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