Lendo a história de armazéns mercadinho do Miguel Chammas, lembrei-me que de 1944 a 1945, em pleno final da II Guerra Mundial, muitos alimentos ficaram faltando nos armazéns paulistanos. Havia falta de trigo, açúcar refinado etc. Houve então um racionamento de vários produtos, os quais antes se compravam no mercado e que, nesse período, só eram vendidos para possuidores de ticket ou no câmbio negro.
Na época eu era uma criança ainda, com sete aninhos, e ia sempre com minha mãe tentar comprar as coisas necessárias para a nossa alimentação. Foi nessa época tão difícil que eu perdi meu pai; lembro-me bem disso, era junho de 1945.
Para se comprar pão, além de dinheiro ou crédito para marcar na caderneta, era necessário possuir um ticket especial que limitava a quantidade a ser comprada. Não me lembro como era adquirido esse ticket, só sei que ele era necessário para se comprar pão, farinha de trigo e carne. Caso acabasse o nosso ticket antes do final do mês, ficávamos impedidos de comprar esses produtos nos mercados, empórios e padarias.
Havia um negro, nosso vizinho, muito simpático, (nunca mais eu soube dele, como também nunca soube seu verdadeiro nome); toda vizinhança o conhecia como gaúcho, e era famoso por ter o dom de botar apelido em todo mundo. Esse bom homem trabalhava em um grande armazém de distribuidores de carne chamado Tendal da Lapa, situado na Rua Guaicurus, e conseguia trazer carne para vender no câmbio negro – sempre, claro, um pouco mais cara que o preço dos açougues, mas com a vantagem de não haver exigência do citado ticket.
Gaúcho gente boa, conhecendo as dificuldades que minha mãe, uma viúva recente, tinha para criar três filhos, fazia mais barato e, às vezes, até mesmo não cobrava a carne que trazia.
E assim, essa fase tão difícil de ser vivida era minimizada pela fraternidade, amor e amizade entre os vizinhos.
Vivíamos na "fartura": fartava trigo, fartava pão, fartava carne, fartava leite, fartava luz, fartava combustível. (Havia o chamado blecaute, em que, em determinado horário noturno, as luzes de toda a cidade de São Paulo se apagavam, e então ficávamos à luz de vela ou lampião por algum tempo. Até hoje eu não sei para quê servia isso).
Meu vizinho que era taxista apareceu com o seu velho (na época novo) Chevrolet 38, com dois enormes fornos cilíndricos na traseira do mesmo, onde era colocado um carvão redondo, feito uma bola de ping-pong, e que, depois de aceso, movimentava o motor do carro; chamava-se gasogênio.
Nessa época surgiram muitas piadas proibidas pra nós crianças, contadas bem baixinho pelos adultos, mas que a gente ouvia e contava meio escondido, no dia seguinte, para o amiguinho no recreio da escola. Lembro-me de uma famosa que era uma pergunta:
– Sabe o que a gasolina falou para o gasogênio?
– Nossa! Como você corre.
– Sabe o que o gasogênio respondeu?
– Também, pudera, com uma brasa no c… quem é que não corre!
Havia, na Freguesia do Ó, pelo menos uns quatro carros com gasogênio.
Faltava muita coisa naqueles tempos. Mas sobrava fraternidade, amizade, afeto e, principalmente, honestidade e lealdade entre as pessoas.
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