A força da razão

Era uma tarde quente de um mês de novembro.

Vinha da Alameda Glete, passando pela Praça Princesa Isabel em direção à Estação da Luz, onde pegaria um subúrbio até o Brás, e de lá outro subúrbio até a Parada XV de Novembro. Por dois anos ininterruptamente fiz esse trajeto duas vezes por dia.

Como sempre, muita gente também fazia o mesmo percurso, e a calçada era concorrida.

Apesar da pressa, sempre se dá um jeito de prestar atenção nas coisas bonitas que nos aparecem, principalmente quando estão bem à mostra.

Quando atravessei a Avenida Rio Branco após a Duque de Caxias, já quase na antiga rodoviária, percebi que em minha frente estava indo um casal chupando sorvetes e caminhando lentamente sem nenhuma pressa. Ela era uma bela jovem trajando short, deixando duas belas coxas para serem admiradas, e ele um senhor franzino e grisalho, aparentando mais de quarenta anos, trajando bermuda.

Percebi que a poucos metros de distância do casal estava um sujeito aparentando menos de trinta anos, de média estatura, porte físico avantajado, chegando a ser meio gordo. Como a maioria das pessoas ele também andava rápido, mas, quando se aproximou do casal, diminuiu a passada e permaneceu atrás da moça, quase que babando no balanço dos seus quadris. Estava bem trajado (do tipo evangélico de hoje), e levava uma maleta tipo 007 embaixo do braço.

Ao vê-lo, duas coisas me chamaram a atenção: a maneira dele levar a pasta (levava-a embaixo do braço, no chamado sovaco, e não pela alça), e a maneira ostensiva e fixa como admirava o traseiro da moça. Também encurtei minhas passadas e fiquei atento esperando pela encrenca, eu tinha certeza de que o cara ia fazer alguma besteira.

Nem precisei esperar muito. De repente o cara apertou o passo e, ao passar pela moça, passou a mão em sua bunda (bem entre as duas montanhas). A moça deu um grito e o cara saiu correndo.

Imediatamente o senhor que acompanhava a moça saiu correndo atrás dele dando-lhe socos e pontapés. O que tornava o espetáculo mais hilário era a desproporção da massa dos dois, parecia um gato fugindo do rato. O sujeito atravessou a Duque de Caxias entre os carros debaixo de bordoada, sem reagir. Na corrida, sua maleta abriu e caíram dela uma colher de pedreiro e um prumo (usado por pedreiros na construção civil) com cordinha e tudo, mas ele nem olhou para trás e continuou correndo até se livrar do coroa. Foi um espetáculo digno de um circo. Até hoje quando me lembro acabo rindo.

Estava explicado por que ele levava a pasta embaixo do braço, o zíper deveria estava quebrado e a maleta não fechava, ou as ferramentas que ele levava não permitiam seu fechamento.

Acredito que numa briga normal entre os dois, o senhor grisalho não teria a menor chance de vitória, mas numa situação dessas a razão fala mais alto.

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