A flor do meu bairro

Esta é a história de uma garota que morava em São Miguel Paulista, mas poderia morar no Itaim, em Itaquera, Guaianazes ou em qualquer outro bairro desta imensa cidade de São Paulo. Quando ela passava transmitia aos homens muito mais que o simples lirismo da lua.

Também não morava na minha rua, muito menos em um chalé, e sim em uma casinha simples de dois cômodos no fundo do quintal de uma bela casa. Não conheci o seu primeiro amor, só sei que não fui eu. A sua primeira dor não sei qual foi e do seu primeiro erro até desconfio, mas foram tantos que posso estar enganado.

Quem a visse tinha a impressão errônea de que se tratava de uma menina descendente de uma boa família, com razoável situação financeira devido às roupas que usava e até certa arrogância transmitia.

Mas nada disso tinha importância. Seu jeito altivo e belo ao andar, sempre de salto alto, transmitia uma espécie de luz por onde passava, principalmente quando as vestes mais curtas deixavam seus joelhos aparecerem. Eles eram apenas uma amostra do que poderia estar escondido e a imaginação, por mais fértil que fosse, não se enganava.

Aqueles que tinham o prazer de conhecê-la um pouco mais intimamente ficavam saber que se tratava de uma pessoa completamente diferente do que demonstrava, mas os homens que a conheceram intimamente de fato descobriam que nem mesmo o mais otimista poderia esperar tanto.

Nada importava se ela não tinha pai e havia sido criada por vários padrastos ao longo de sua curta vida, se sua mãe era uma prostituta irresponsável que jamais lhe dera o conforto e educação que ela merecia e aparentava ter, se as roupas e calçados que usava eram emprestados de amigas e até da própria mãe, e se quando falava seu português chegava a machucar os ouvidos de quem ouvia. O que interessava era o prazer que ela podia proporcionar apenas com sua simples presença a qualquer mortal, e como havia mortais interessados nela.

Mas coincidentemente a música de Adelino Moreira o bairro inteiro sentiu quando a nossa flor, não tão ingênua, sumiu com seu amor pensando que ele seria seu rei. E subitamente ficamos privados da companhia da moça mais bela e atraente da nossa vila. Para aqueles que a amavam, como eu, a perda foi maior ainda, nem o destino tomado por ela conhecíamos.

Foram necessários alguns anos para sabermos que ela havia se enganado redondamente. Não foi na Rua dos Desenganos, porém menos ingênua e também menos bela que eu a encontrei.

Não precisou fingir desejos nem me oferecer sua boca e muito menos paguei pelos beijos que lhe roubei, quando casualmente a encontrei em um ponto de ônibus e lhe ofereci carona. Por muitos meses seguidos ela acabaria sendo minha única companhia para pagar e apagar o sofrimento causado pelo tempo que havia sumido.

Esta estória pode parecer vulgar e não é minha intenção provar nada a ninguém, mas uma coisa é certa: do primeiro amor elas nunca se esquecem, mas na maioria das vezes aqueles que deixam suas marcas não moram na mesma vila e são sempre um pouco mais velhos.

E-mail: [email protected]