Por mais que seja indiferente uma pessoa com o cotidiano, quero crer que fiquei curiosa, quando não até mesmo intrigada: que será aquilo sob o asfalto? Deve causar alguma estranheza em alguém que passe pelas ruas Tiquatira, Guararema e Ibirarema. Seja morador do lugar ou mero transeunte, principalmente se jovem, pois se contemporâneo de meus 63 anos só despertará lembrança nostálgica.<br><br>Já faz bom tempo que presencio o fato. É que com o desgaste do asfalto (como se fosse uma erosão de saudade) silhuetas de trilhos que o asfalto recobria totalmente se mostram aqui e acolá, ora mais nítidas ora menos. <br><br>Na verdade, trilhos que teimam em querer emergir de sobre o asfalto, trilhos que sustentavam os bondes da linha 30 – Bosque da Saúde. Bondes que rodaram, até desativados, dos anos 30 ao começo dos 60. Dos quais muitos se lembram. Por exemplo, cruzamento Tiquatira x Juçara. <br><br>Dá para ver no asfalto um entroncamento triangular de trilhos (ao menos a silhueta). É que o Bonde 30, uma vez chegando ali ao ponto final, procedente da Rua Asdrúbal do Nascimento, entrava só em um pedacinho da Juçara. Então, de marcha à ré, retornava à Juçara para dali seguir para o Centro. Já na frente do tradicional Colégio Princesa Isabel, verdadeira memória do ensino paulistano, dos mais antigos da Pauliceia, a gente vê claramente um desvio, trilhos de espera onde o bonde que subia para o ponto final tinha que esperar aquele que descia no sentido oposto. <br><br>Curiosamente naqueles anos 60 o percurso entre a Praça da Árvore e o ponto final era de linha singular: uma só, tanto para ir quanto para voltar. A única remanescente, como também ocorrera com o trecho final de outra linha, Vila Prudente. Era um tempo no qual ainda brilhava o Cine Estrela – uma referência cujo prédio de torre de vidro ainda jaz em pé, tal qual estrela apagada, de nenhuma grandeza.<br><br>Lembrança da estrela de neon, esverdeada, no topo da torre. Nunca morei no Bosque. Andei no Bonde 30 algumas vezes, moleque e adolescente. Bondinhos abertos e depois carros fechados (reformados). Os trilhos que procuram aflorar do asfalto, quem sabe? Denotam um inútil apelo: que os bondes venham a retornar. Uma memória viva do transporte. Como na São Paulo de outrora, cuja paisagem era enfeitada por aqueles elétricos vermelhões da CMTC, herança da Light repassada para a municipalidade em 1947. <br><br>Trilhos do Bosque: saudade que procura emergir de sob o asfalto.<br><br><br>E-mail: [email protected]