– Sabe o que o camarada disse hoje no comício, dona Elisete? Disse pra gente quebrar o seu Valtão de pau e depois pegar a dona Aurora, rasgar a roupa dela e correr com os dois ladeira abaixo. Já pensou? – contava Robson, o boy, todo empolgado.
– E ele bem que merecia – devolvia-lhe esta, em alto e bom som, pouco se importando por estar dentro de uma fábrica, lugar de trabalho, de respeito.
– Essa daí ficou, outro dia, na porta da fábrica com um desses barbudinhos do sindicato, e quando eu lhe perguntei quem era me disse que era o "noivo" – cochichava Cláudio, destilando veneno.
– Noivo? Bah! E desde quando as "putanna" me tem noivo, senhore Cláudio – devolvia-lhe Tomazo.
Em alto e bom som, dona Elisete vivia alardeando, pouco se importando de haver alguém da chefia na escuta. Falava mal do patrão, do seu, que o patrão, seu Valtão, passava com o SIMCA feito um louco, tirando fina do pessoal parado na porta da fábrica.
– Sabe, dona Elisete, o camarada disse que vai acabar com esse barato. Ontem, ele fuzilou o seu Valtão com os olhos e ainda deu-lhe uma bela de uma banana quando passou – afirmava Robson, o boy.
– Cheguei no pedaço da banana e adorei, Robson! Ontem, seu Valtão quase derrubou o camarada do caixote, isto pra mim é provocação, violência, truculência, mas vai acabar, claro que vai! Se um dia aquele ali me relar com o carro, meu noivo lhe joga um processo em cima que vai lhe tomar até metade da fábrica. Pensa que tem o quê? O rei na barriga?
Na porta da fábrica, o camarada instruía os peões, "entrar, sentar, e só recomeçar quando chegar uma ordem nossa!". Estamos aqui fora batalhando por um salário decente que este é de fome, a inflação come ele inteiro…
A fábrica silenciava e o aumento saía na manhã, na manteiga apesar das ameaças e gritos do seu Valtão, "vagabundo aqui não tem vez, vagabundo aqui não faz carreira!".
No dia treze de março, naquele comício gigante, diante de decretos e projetos de desapropriações de terras, encampações de refinarias, reformas já "na lei ou na marra", seu Valtão ficou alucinado, desvairado. Manchetes de jornais gritavam, "reformas ou revolução, forca para os gorilas, desordem e agitação social, conspiram contra a nação".
Joaquinzão, peão filiado ao sindicato entendia que a direita, golpista, começara a fechar o cerco. E lá fora, o pai e o seu Tomazo não mais se entendiam.
Sempre na mesma toada o pai repetia:
– Os badernero que me ponham as barba de molho que aqueles dali já me estão lustrando e me engraxando as botina.
– Será que o "amico" não me está vendo que é uma armação deles, dos espiões da CIA? Guerra, "é una guerra pasicológica", inteirinha preparada por eles, pelos americanos… explicava Tomazo, do alto da sua condição de europeu, marinha mercante.
O pai discordava e ainda suspirava pelo homem, aquele lá de cima, "má, as força não me deixaram o coitado lá em cima e agora, este que ficou, fraco, este desgoverno, as ordens chegando lá de baixo…".
Só que a ordem que chegou no dia dezenove de março veio lá de cima, da escadinha de madeira por onde desceu seu Valtão, louco, desvairado:
– Quero todos na rua agora! Vamos marchar juntos pela nossa salvação!
Apopléctico, vermelho como o SIMCA que jogava nos peões parados em comício na porta de sua fábrica, parou diante de Joaquinzão e ordenou:
– Quero o senhor na marcha também, viu, seu Joaquim!
Seu Valtão, casado, pai de quatro filhas, era amante de Dona Aurora, encarregada da secção de bobinagem, que só trouxa não sabia, só trouxa não percebia. A fábrica saía da órbita quando a Aurora apontava e subia garbosa a escadinha de madeira que levava aos escritórios do patrão. Virava um olho arregalado, escancarado, uma língua venenosa, afiada. Horas depois a Aurora descia radiante, esplêndida, "promovida por merecimento" justificavam-se durante os dissídios coletivos.
Na tarde da marcha a Aurora caminhou de mãos dadas com o patrão. Ganhou capa azul, de mestre. A peonzada continuou verde e amarela. O sindicado foi fechado. O camarada do caixote de madeira corria que sumiram com aquele que nem mais o rastro se viu, desintegrado que foi. O caixote de madeira ficou na porta da fábrica, apodrecendo ao relento.
Esquecidos, os peões agora se esquentavam no sol, esperando pelo apito da fábrica para entrar feito gado, enfileirado.
Resolvido colocar um ponto final nesta história, seu Valtão chamou dona Aurora e deu-lhe um bilhete, o azul, e mandou que fosse reclamar com o bispo. A estabilidade pesava, embuchada e como!
Empobrecido, o país começou a ver a transferência de sua reserva de cérebros para países onde a produção científica sempre foi mais importante que a ideologia.
Seu Tomazo levantou dona Rosa do chão quando aquela dali ajoelhou-se aos seus pés:
– Levanta já, "vecchia!". Sossega a cabeça que tua menina já está lá na Itália, com "mia mamma", comendo e bebendo do bom e do melhor, igual ao homem, aquele lá de cima.
Chorando, dona Rosa, estava daquele mesmo jeito que ficou quando veio aquele pessoal querendo prender a Elisete, dizendo que era "uma terrorista" e que haviam estourado um "aparelho", o dela.
– Que aqueles dali, dona Rosa, eles me pegavam as pessoas e nunca mais me apareciam com elas. A tua menina tirei enrolada em um cobertor depois de três dias escondida no porão do meu sobrado. Foi no lugar da filha de um "paisá", que esta mando depois.
Seu Valtão programou missa campal, ação de graças, regada a vinho, depois um bom churrasco, que este milagre teria que agradecer, tanta fartura, tanta riqueza!
Aos peões mandou quadrinhos de madeira gravados com sua eterna gratidão, "ao Antonio, ao João, ao Joaquim, ao Tomazo e a todos os peões, minha homenagem aos homens que dedicaram tantos anos ao engrandecimento desta casa". Que não era mais fábrica, era um conglomerado.
Tomazo, diante da sua condição de europeu, marinha mercante, tinha uma única dúvida, uma pergunta, uma indagação:
– Senhore Antonio, e se o teu homem, o lá de cima, depois do bang-bang e das pipocas tivesse escolhido dormir um sono, o bom e velho sono dos justos?
Como seria, se não tivesse sido?
fim
"É difícil dizer, com certeza, o que me leva a seguir por esta rua, em vez de seguir por aquela, uma escolha como essa pode modificar a minha vida – assim acontece em todos os momentos, nos movimentos que faço, nas decisões que tomo. É assim, talvez, que deve ser: – fabricamos o nosso destino e o destino de outras pessoas, a cada gesto e a cada escolha" (in Lisbos, Luis C. – Nova Era – Seleta de textos).
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