A Dona Olinda da Vila Mariana

Durante os mais de vinte anos que vivi na Vila Mariana, convivemos com essa pessoa. Era uma solteirona de origem libanesa que morava com a mãe idosa em um velho sobrado da Rua Nuporanga, em frente da atual Praça da Bíblia.

Dizia ela que fora professora em outros tempos. Recebia uma merreca de aposentadoria. Gostava de animais, mas levou esse gosto ao extremo e passou a ser mais uma daquelas criaturas que recolhiam animais na rua e os levava para casa. Chegou a ter confinados em casa mais de trinta gatos e cerca de vinte cães, sob veemente protesto da mãe, que não tardaria a falecer – não pela presença dos ditos animais, mas pela idade já avançada.

Andava mal vestida, cabelo desgrenhado e com um enorme bócio no pescoço. Morta a genitora, teve de entregar a casa e passou a viver de favor no quintal da casa de um irmão, que morava em um enorme sobrado da Madre Cabrini. Esse irmão até se propôs a ajudá-la, desde que ela abandonasse essa prática. Como ela não cedia, sua vida foi degringolando cada vez mais. Eram sempre mais e mais cães e gatos vivendo com ela em um barracão improvisado no terreno do irmão. O cheiro era insuportável.

Mas o que a minha família, afinal, tinha a ver com ela? Muita coisa. Minha mãe, que não sabia dar limites (isso já foi falado em outra história), começou a ajudá-la, e a mulher passou a bater cartão lá em casa.

Logo cedo ela aparecia para o café da manhã, sempre acompanhada da Tita, sua cachorrinha favorita, na coleira. Na minha casa tinha um quartinho no quintal, e minha mãe, por pouco, a colocou lá, não fosse o meu pai ameaçar de sumir de casa se isso acontecesse. Em casa também tivemos os nossos gatos, mas eles viviam soltos e eram poucos. De vez em quando algum deles sumia e não mais voltava, para nossa tristeza. Eles sempre foram a nossa paixão.

Quando me casei, meus pais ainda ficaram naquela casa por mais cinco anos. Fiquei sabendo que a tal mulher tinha ido morar com uma outra velhinha, que vivia sozinha em uma casinha ali por perto, mas já não tinha mais os cães nem os gatos. Minha mãe morreu e a Dona Olinda, creio, nem ficou sabendo. Provavelmente, passados mais de 25 anos, ela, por sua vez, também deve ter partido desta para a melhor.

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