Nesta noite de sábado, chuvosa, a sós, mexendo no velho baú, já quase enegrecido pela ação do tempo, abri-o e encontrei o meu primeiro álbum de "colecionador de selos". Folheando-o, deparei com a página onde estão os lindos e maravilhosos selos referentes à homenagem do Quarto Centenário de São Paulo.
Lentamente, fui fechando os olhos e a memória levou-me aos tempos de meninice, quando começamos a colecionar os selos, meu mano colecionava gibis, mas meu grande e um dos melhores amigos, Hermann, austríaco, que falava mal o português, era o meu grande parceiro de coleção e um verdadeiro entusiasta de filatelia. Nós o chamávamos de Germano e assim ficou.
Recordo-me, embora vagamente, quando nas manhãs de sábado íamos à "cidade", nós três, mas apenas nós dois comprávamos selos e o mano gibis. Não havia perigo! A loja que vendia os mesmos ficava na Rua São Bento e o acesso era através daqueles elevadores tipo "grade", muito barulhento, que nos deixava no andar da mesma. Lá ficávamos a manhã toda escolhendo e comprando os que estavam dentro de nossas posses.
Hermann era muito meticuloso e levava sempre uma lupa. O dono da loja já era um senhor idoso e "alemão", tipo resmungão, e perguntou para que essa lupa menino?: – É para ver se o selo não é falso, respondeu. Ele parece que não gostou da resposta e falou, em alemão para, acredito, esposa: – Fique de olhos nesses moleques senão são capazes de roubar. Só que Hermann falava alemão e entendeu tudo e respondeu em alemão: – Ninguém aqui é ladrão, só se o senhor for. O dono e esposa não tinham onde por a cara… Como não havíamos entendido nada, depois ele explicou o que foi dito.
Fomos embora, e nunca mais compramos selos lá.
Mas saímos de alma lavada e orgulhosos de nosso amigo…
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