A cidade da minha infância

Minha infância começa aos sete anos, no Rio de Janeiro. Antes disso, me lembro de pouca coisa. Aos nove, vim para São Paulo, morar num bairro afastado, quase como um município do interior. Com o tempo, a cidade se aproximou, tomou conta dos matos, poluiu o rio, derrubou nossa casa. Mas não foi sempre assim.

Fomos morar na Vila Ester, fundos da Vila Carrão, perto do espaço onde hoje é a quadra da Nenê de Vila Matilde. Não havia água encanada nem luz, tampouco. Lembro-me que minha mãe só apagava a luz do lampião de querosene depois que dormíamos, pois nossa avó, como a maior parte das mineiras de antigamente, só contava histórias de fantasmas, almas penadas e demônios que explodiam cheirando a enxofre, receita mais que suficiente para que tivéssemos muito medo do escuro. Todo mundo amanhecia com o nariz preto da fuligem do querosene.

Sem água encanada, o banho era difícil. Só lavávamos os genitais e os pés antes de dormir. Banho mesmo era aos sábados numa bacia grande. Aliás, os fins de semana eram uma delícia. Além do banho, podíamos ouvir as músicas do Luiz Gonzaga: "se a gente peca só por lembrar/ do amor que a gente um dia perdeu/ saudade até que assim é bom…." ou da Dalva de Oliveira: "que será da minha vida sem o teu amor/ da minha boca sem os beijos teus/ da minha alma sem o teu calor…" tocadas no alto-falante do parque de diversões, tão longe que nem dava para ver. Aprendíamos as letras todas que cantávamos nas noites quentes, inventando que éramos cantoras.

Apesar da pobreza, a alegria morava em nós. Brincávamos pelos matos, comíamos os brotos viçosos das roseiras, a parte tenra dos brotos dos capins é uma raiz muito gostosa, dividida em gomos, de um mato que chamávamos de caninha. Na hora de lavar roupa, íamos para a beira do rio Aricanduva, cujas águas eram limpas e tão rasas que ficávamos brincando lá no meio, saía presa entre as pernas, enquanto nossa mãe lavava as roupas. Em junho, havia fogueira e ficávamos comendo pipoca e batata-doce, jogando buchinho no fogo para estalar como bombinhas, contando os balões misturados às estrelas no céu. Noite fria, tão fria de junho, os balões lá no céu vão subindo, entre as nuvens aos poucos sumindo…

Meu pai, marceneiro na região da 25 de Março, conseguiu uma casa com pomar no bairro da Casa Verde. Uvas, jabuticabas, caquis e goiabas faziam a nossa alegria, cada uma tentando acordar mais cedo que as outras para pegar a fruta amadurecida pela noite. Em 1952, o governo começou a criar o antigo curso ginasial, à noite, na maior parte dos grupos escolares, com exame de admissão duríssimo. Ficava encantada com a professora de Inglês. "Chamem-me de my teacher". A estas alturas, como a maior parte das garotas já era fã da Doris Day, conheciam todas as músicas que cantavam feito papagaio, foneticamente, sem entender nada: “O ranei / ti for tu / en tu for ti…”. Agora aprenderia. Decidi ser professora de Inglês.

Mudamos novamente para a Vila Carrão, antes de completar o ginásio. Nas viagens diárias familiarizei-me com o Parque D. Pedro II. Na época, ainda um local muito bonito. Caminhos tortuosos entre árvores centenárias, cipós e trepadeiras caindo pelos galhos, como um Trianon muito maior. O tempo trouxe o Quarto Centenário de São Paulo. Com dezesseis anos, lembro-me de estar no Viaduto do Chá, feliz por viver aquele momento, com todos aqueles triângulos prateados, chuva de estrelas, caindo sobre mim. “São Paulo, terra amada/ cidade imensa de grandezas mil/ és tu, terra adorada/ progresso e glória do meu Brasil…”. Sentia-me a mais paulistana das criaturas, amando esta cidade, cheia de arranha-céus que significavam o progresso, futuro brilhante para todos nós, seus filhos adotados.

Curso Clássico, à noite, na Penha. Aulas de Latim, Francês, Inglês, Espanhol e Filosofia, além do currículo tradicional, enquanto o Adoniran, com Saudosa Maloca e Trem das Onze, rivalizava com o “Great Pretender” no alto falante do parque perto da escola. Mas a vida mudou. A pobreza que parecia não poder ser pior, transformou-se em miséria quando nosso pai, depois de gerar mais três filhas, foi embora. Em busca de trabalho, fiz um teste na então São Paulo Light S/A. Reprovada no exame médico por ter um braço paralítico, escrevi, falei, briguei e consegui o emprego. Aos 20 anos, fui a primeira portadora de deficiência a ser admitida. Abri caminho para os que vieram depois.

Cursinho do professor Castelões, na Rua São Bento. Em 1961, consegui entrar em Letras na USP, à noite, então na Rua Maria Antônia. Anos memoráveis. O ambiente fervia. Muitas faculdades ali. FAU, Economia, Sociologia e Política, Mackenzie. Num teatro ali atrás, um Chico ainda meio desconhecido cantava Pedro Pedreiro. Nos fins de semana, estudava na Biblioteca Mário de Andrade, “drops” para driblar o sono, livros, trabalhos, flertes.

A Revolução de 64 foi acompanhada por nós, no quintal comum entre a Filosofia e a Economia, num radinho de pilha sintonizado na Argentina. A partir daí, instalou-se o terror. Nosso Grêmio, que resistia à ditadura, teve sua gráfica arrebentada pelos brucutus. Bombas explodiam na rua, enquanto eu assistia aula no quarto andar… Mal podíamos circular por ali sem levar borrachadas dos "policiais". Quebra-quebra com o pessoal do Mackenzie, velhos inimigos, agora donos da situação. Enquanto o Chico desabafava: “apesar de você, o amanhã há de ser outro dia…”.

Vinte anos depois: Diretas já! Anhangabaú lotado. Como esquecer? Eu, já com meus quatro filhos, o mais novo no colo, dizendo: “Prestem atenção. Este é um momento histórico!”. “Que é momento histórico, mamãe? Quando chegar o momento/ este meu sofrimento/ vou cobrar com juro/ juro…”. Não cobramos. São Paulo virou sucursal de várias cidades. Continua sendo a mãe de todos, inchada, sem estrutura para adotar tantos filhos. “SOS” do Brasil e países vizinhos. Como todo corpo inchado, move-se devagar, mas não pára. Sofre com a violência dos acomodados e dos rebeldes que não percebem que ela depende deles para ter saúde novamente.

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