A cidade crua

O sol está firme, o céu azul. A rodovia a que dou as costas é um convite que recuso com dor na alma, pois lá embaixo, após a serra, o Oceano Atlântico lambe a praia. Aqui, no planalto, os carros inadvertidamente andam rápido, como se as ruas tivessem sido projetadas para isso e não para permanecerem parados, colados ao carro da frente, ou ao caminhão que exala fumaça negra e transforma o sangue dos motoristas, transforma a vida dos motoristas num inferno urbano e vertical.

As árvores estão verdes e as mais atrevidas chegam a mostrar flores amarelas. Pássaros canoros, pousados em galhos e fios elétricos, não temem os alçapões. Crianças brincam nas ruas!

É o auge da maluquice. Então não as avisaram que aqui é São Paulo e que São Paulo é uma cidade crua e violenta?

Ando assim, olhando o que o dia a dia nos oculta, para aquilo que os motoboys nos impedem de ver. Acho que o tempo está suspenso e penso que ainda dá tempo de viver.

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