A casa dos meus pais

A casa dos meus pais no bairro do Ipiranga foi minha escola. Éramos em dez, papai, mamãe, o meu “nono”, eu e seis irmãos.<br><br>Eu e minhas amiguinhas brincávamos de casinha, o fogão era uma caixa de papelão, latinha de massa tomate, peixe e elefante, eram as panelinhas… Éramos crianças felizes! Os sonhos muitos iguais: crescer e trabalhar para ajudar os pais.<br><br>Meus irmãos jogavam bola de meia com os amigos, bolinhas de gude e carrinho de rolimã. As ruas eram tranquila com bastante espaço, todos os vizinhos eram amigos, não se pensava em perigo.<br><br>Eu às vezes ia na casa da minha madrinha comer arroz, feijão e jiló e o Zé e o Tião vinham na minha casa comer macarrão. Isso era troca de família! Festa mesmo era de domingo no fundo do quintal embaixo de uma parreira de uva meu “nono” fez um forno e um fogão a carvão, fez uma mesa de quatro metros por dois de largura. <br><br>Meu pai, como bom anfitrião, levantava de madrugada para cozinhar o músculo do molho do macarrão. Era tanto molho que tomate e extrato eram a solução.<br><br>A cerca da casa era de madeira, o portão de ripas ficava sempre aberto, esperando as visitas… Iam chegando em turma: primos, amigos, compadres e tios, todos vinham carregados, macarrão do papel azul do Matarazzo e Araci, bolos, manjares e frios. Um punhado de balas e doces “confiança” para alegrar as crianças!<br><br>Nós não tínhamos riquezas, mais era farta a mesa! Os "causos" mais engraçados; um dia no aniversario da mamãe, o papai comprou um sapato para ela na ladeira porto geral, pegou dentro de um caixote que era mais barato e trouxe um pé de um jeito e um pé de outro. Na rua passava um senhor que vendia sapatos de pneu, mamãe comprou um par para mim, os dois do mesmo pé, até o senhor voltar o pé já tinha crescido!<br><br>Lembro também dos 'causos' do tio sétimo, ele parava em frente ao prédio Martinelli e “parlava” em italiano:<br>- “ma che fa; che fa;?” <br>As pessoas paravam para olhar e ele ia saindo devagarzinho.<br><br>E meu tio Sabino, português, contava piadas e dizia ser de inglês. A mamãe e as tias eram muito iguais: todas com lenços amarrado atrás da cabeça e todas de avental.<br><br>Era um tempo feliz, irmão visitava irmão, antes de sentar a mesa, faziam uma oração, unidos, não tínhamos riquezas, mais era farta a mesa!<br>Depois de comer e beber suco de água, açúcar, e “vinhovinha” o saboroso cafezinho, o famoso café “moka”, que atrás do carro tinha um grande bule de propaganda.<br><br>Já estava escurecendo e íamos acompanhar os tios até o ponto do bonde… Uns iam para o Bixiga, Barra funda, Brás, Água Rasa, Penha… Eram tantos abraços e beijos… Domingo que vem a gente volta, e não esqueçam as “porpetas”! E meus pais já com saudades gritavam:<br>-“Venham… Venham”<br><br>Ofereço esta história a todos que moravam e ainda moram no Ipiranga.<br><br><br>E-mail: [email protected]