Bem, lá pelos anos 50, no bairro do Tatuapé, na Rua Euclides Pacheco, havia uma belíssima casa, onde morava uma família, da qual me recordo do patrono, então chamado "seu Chisto". Ficava assentado em sua cadeira, no canto da grande sala, ouvindo radio.
Homem forte, robusto, bem alinhado com seu terno escuro, ficava horas acompanhando as brincadeiras da criançada. Morava com suas filhas Julieta, Eulália, e Elza. A casa era muito grande, avarandada, com escadaria na entrada e com muitos cômodos.
Havia uma sala enorme, onde suas filhas nos ensinavam a dançar. “Dois pra lá e dois pra cá”. Tínhamos algumas aulas do que chamávamos de figurado, mas isto era para os alunos dos cursos avançados.
Havia na casa um local mágico, que acredito que poucos conheceram: um porão. Para entrar lá, tínhamos que ser bem valentes, pois era bem escuro, baixo e estreito. Quando conseguíamos passar pela entrada, tínhamos a oportunidade de ver uma series de relíquias da família, bem como uma infinidade de troféus de um antigo clube que funcionava nas proximidades, cujo nome era "Saudades". Neste clube, os jogadores usavam uniforme tricolor, semelhante ao do fluminense.
Era um local onde eu assisti grandes partidas de ping pong, entre meu pai e meu tio Caetano. Eram exímios jogadores, mas com estilos bem diferentes. Caetano era jovem, rápido, cortava todas, e meu “papi” ficava nas chamadas "deixadinhas", ora de um lado, ora de outro. O resultado pouco importava, o show que ambos proporcionavam é o que fazia com que um grande número de pessoas vibrassem com ambos.
Na casa de seu Chisto, havia aos fundos algumas casas de aluguel,que foram construídas no amplo terreno. Lá aprendi os mais diversos truques que a criançada da época fazia. Havia também um pequeno barracão de lata, onde para meu espanto, fabricavam guitarras com cabos de vassoura e tampa de lata de cera. Chamavam a galera e tocavam Beatles!
Por lá brincávamos em uma escrivaninha muito antiga, sem espelho, que realmente se parecia com um painel de carro. Acrescentamos um pau de vassoura e mais uma tampa de lata de cera como direção, e avante; rumo ao universo. Certa vez assentei ao lado de José, e ele me perguntou para onde íamos. Só sei que partimos, mas eu ainda não cheguei daquela viagem..
As pessoas que alugavam tais casas tinham que adentrar pela lateral do imóvel, e era lá que fazíamos a maior bagunça. Na época das bruxas, fazíamos inúmeras armadilhas com abóboras para assustar os moradores. Era realmente de perder o fôlego de tanto rir.
Com o tempo o asfalto foi chegando e para jogar futebol foi ficando mais difícil. Dizíamos que parecia ter virado rua, aquela Rua Euclides Pacheco. Da galera que me recordo, havia o Eduardo, e o Zezo, filhos da dona Evanira e do seu Vicente Pascarelli. Me surgem na memória o Reinaldo, Edsinho, Paulo e seu irmão, Boca de Jacaré, Adilson, Bacataré, Boca de caçarola, José, Marli, Claudio, Angelim, Beto, Rafael, Miro e um lindo pastor alemão do Zezo, o Candango, que tantas vezes me fez correr de medo e subir na laje. O Vado e sua linda irmã. O Zeca, e o Luiz. Seu Tambucci, professor de Judô. As irmãs Rosa e Cecília, que para vê-las, tomávamos banho de torneira após o jogo de futebol, só para molhar um pouco o cabelo e parecer mais limpinho.
Minhas maravilhosas tias Sonia e Diva sempre por perto zelando por todos. Os primos jogando junto, num momento divino da vida, onde os laços de família ocorriam naturalmente. Até as primas Divinha e Angélica jogavam no gol. Orlando e Cabé com alegria contagiante. Meu irmão Regis com sua incrível habilidade com a bola, fazendo malabarismos e seus desmaios, que tanto nos faziam rir, tamanha era nossa ignorância sobre o que poderia estar acontecendo. .
Dré e Zé a fugir comigo do candango. Dré, especialista em fugas para o telhado, quando o assunto era injeção. Jose, o famoso pedacinho do céu, com seus olhos azuis e suas excelentes notas, que causavam grande problema para os malandros, e “cabuladores” de aula.
Soltávamos pipas gigantes, que, aliás, era a especialidade do primo Tito, que também foi um grande jogador de futebol de botão, que era uma febre na época.
Lembro-me que em frente à casa do seu Chisto morava a moça mais linda de todo o nosso bairro. O nome dela era Cleide. Moça de cabelos grandes dourados, que quando corria pela rua, deixava um rastro de alegria e felicidade, que tanto nos encantava. Quando ela saia de casa, o jogo de futebol parava.
Parece que o tempo, dava um tempo, e tudo ficava mais lindo e terno. Todos ficavam apreciando suas brincadeiras na calçada na frente de sua casa. A própria calçada parecia um palco, desses de Hollywood, pois era feita de pequenas lajotas avermelhadas, como um tapete brilhante para enfeitar ainda mais aquela verdadeira dança que Cleide fazia com seus saltos sobre os traços da amarelinha.
Um Ipê amarelo lançava suas flores para colorir o esplendor daquele show. Certa vez alguém disse que o mundo ia acabar e, ao meio dia, ficamos esperando por horas o fim do mundo.
– “Que sacanagem, justo hoje que tem jogo com a rua Tuiuti. Não dá pra ser outro dia?” perguntei.
Ficamos assentados em cima do muro esperando. Daí chegou meio dia; meio dia e dez minutos, meio dias e meia e… Graças a Deus o mundo não acabou! Ganhamos o jogo e para comemorar, assistimos a mais uma graciosa dança da nossa mais bela bailarina, que dançou livre, leve, solta, docemente, e que um dia se foi pelas curvas do poente.
Em nossa memória tudo ainda está muito próximo, e em nossos corações, nunca esteve tão vivo.
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