Sou psicólogo e, tal qual muitos de meus colegas de profissão e amigos psiquiatras, sempre tenho presente o “mister” de sensibilizarmos a população para os cuidados e respeito de que o portador de transtornos mentais necessita. Lendo os libelos de Franco Basaglia e outros defensores da inclusão social do psicótico, por vezes, recordo-me de uma personagem que marcou minha infância e – creio – de muitos os que têm "saudade das auroras de suas vidas, que os tempos não trazem mais" (parafraseando o ilustre poeta romântico) e que as passaram nas imediações do bairro do Paraíso, para ser um pouco mais específico, nos anos 60, no quadrilátero entre as ruas Manoel de Nóbrega/José Antônio Coelho e Tutoia/Avenida Bernardino de Campos. Ao menos, eram os locais em que a lobrigava, de quando em vez. Jamais soube seu verdadeiro nome. Todos a conheciam pela alcunha ignominiosa de "A Bêbada".
Tratava-se de uma senhora, aparentemente de 50 anos, (talvez sua faixa etária real fosse bem menor: as vicissitudes por que passa a população desvalida que vive às intempéries sem teto envelhecem muito) negra, que vez por outra aparecia, sempre ao lusco-fusco crepuscular ou começos da noite. Sempre falando coisas desconexas. A bem dizer a verdade, creio que pensava em voz alta, refletindo sua confusão mental.
Quando surgia na esquina, todos já alardeavam: "Lá vem a Bêbada", ou seu equivalente nos idiomas oficiais de nosso bairro (La Imbriaguna, As-Sakrana, em italiano e árabe). Os infantes corriam para dentro, as senhoras mais idosas começavam a entoar a prece das 13 Almas ("Rogo às 13 Almas Benditas e Sabidas, que me cubram com sua proteção"), os mancebos, em sua desagradável e injusta mania de agredir verbalmente o desconhecido, já saíam gritando injúrias à pobre infeliz, que – a julgar pelo seu passo sempre inalteravelmente lento e suas falas sem sentido para quem não fazia parte de seu universo mental caótico – ou não entendia, ou, pelos anos de mazelas e desdém de todos, respondia com seu igual desprezo. Certo dia, essa taciturna, porém inofensiva personagem, desapareceu.
Hoje, penso nela com um misto de nostalgia, penalização e vergonha: se já tivesse a compreensão dos fenômenos mentais que tenho hoje não titubearia em tentar ajudá-la. Quem seria? Alcoólatra, psicótica? Alguém que a vida maculou indelevelmente com o sofrimento? Teria familiares? O fato de ser negra, segundo nosso grande pesquisador Clóvis Moura, reforça o fato de ser esta a parcela de nossa população mais afetada pelo desinteresse das autoridades. Sugiro que os leitores se detenham em histórias como a de Liló, publicada aqui neste portal. Rezo para que tenha encontrado algum modo de lidar com sua confusão mental e saído das ruas, ou se já não estiver entre nós, que tenha encontrado alguma paz, onde quer que Deus a tenha levado. Quantos outros e outras mais terão que padecer para que nos conscientizemos de que todos podem ter surtos psicóticos, e a injúria e o preconceito só pioram a situação?
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