Estudando no Instituto de Educação Anhanguera nos anos 60, éramos um grupo de adolescentes que ferviam em idéias e desejos. Vivíamos os pesados anos de chumbo da ditadura militar. Não era possível formar grupinhos nas ruas, que logo aparecia um soldado que, com a ordem "circulando, circulando", tratava de desfazer qualquer possível conversação que pudesse, nem que de longe, parecer subversiva.
Éramos um grupo grande, que frequentava a lanchonete "Twelve" e se reunia para falar de futebol, dos assuntos escolares, discutir e marcar os famosos bailinhos de luz negra no Alto da Lapa. Mas o assunto principal
eram as garotas. Sim, as mulheres!!! Ah! As grandes inspiradoras.
Dentre elas, uma sobressaía: uma loira (bem mais velha do que nós). Era uma vendedora de calçados em uma loja que ficava na esquina da Dronsfield com a 12 de Outubro. Loiríssima (oxigenada, é claro!), belas curvas, coxas grossas, seios fartos, muito bem exibidos em decotes muito generosos. Tão generosos que inspiravam a maioria de nossos sonhos e aspirações.
Surgia, na época, a botinha "Calhambeque". Uma bota de camurça, salto carrapeta e zíper, lançada pelos famosos cantores de ié-ié-ié da época. Um sonho de consumo dos rapazes que frequentavam os bailinhos a fim de conquistar as garotas.
Não é preciso dizer que a loja de calçados tratou de expor a tal botinha, dando especial destaque nas vitrines.
A vendedora loira fazia o gênero BB (Brigite Bardot). Aliás, era assim que a chamávamos: BB. E foi um tal de acorrer à loja para comprarmos a tal botinha. Todos nós fazíamos questão de comprar com a "simpática" vendedora. A comissão da moça deve ter aumentado muito naquela época.
Mas tudo isso era só para vê-la ajoelhar aos nossos pés enquanto experimentávamos o calçado, pois assim ela expunha ainda mais o colo, mostrando de forma abusiva os mais cobiçados seios da Lapa na década de 60.
Aqueles que podiam financeiramente chegaram a comprar três ou quatro pares de botas de cores diferentes. Mas dentre nós havia um colega, o Boca, de poucos recursos e muita tara. Que sofreu juntando o suado dinheirinho para comprar a sua primeira e única bota "calhambeque", mas que de quando em quando voltava para experimentar outras cores, sem intenção nenhuma de comprá-la, saindo sempre com a desculpa de "não gostei" para se livrar da compra.
Até que um dia, o dono da loja, notando a estratégia e os olhos compridos do rapaz, interrompeu subitamente o atendimento da nossa BB, dizendo: "a partir de hoje quem te atende sou eu"… continuou insistindo de forma firme para que o Boca comprasse o calçado.
Foi um "perereco" para o rapaz se livrar do insistente dono da loja, que o espantou deixando bem claro que estava cheio de vê-lo experimentar as botas só para "comer" os seios da moça com os olhos.
Foi um enorme vexame para o nosso colega, que por um bom tempo evitou até a calçada da esquina da Dronsfied com a 12 de Outubro. Foi também o fim de seus sonhos com a moça. E também dos nossos, que já éramos conhecidos e altamente suspeitos pelo tal proprietário.
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