O Centro (re)visto

Onde fica mesmo a Rua XV de Novembro? Essa pergunta que hoje me parece óbvia era intrigante uns dois anos atrás, nos meus 15, 16 anos.
Sempre passei pelo centro, e é este o verbo que melhor designa minha convivência com a área que hoje reputo como a mais importante (historicamente) da cidade.
A dúvida surgiu após a leitura de um livro, presente de uma tia minha. O Livro é "Lembranças de S. Paulo" de Gerodetti e Cornejo. Trata-se de uma vasta coleção de cartões-postais, que retratam a cidade que tanto amo de uma maneira que mal consigo imaginar. Como diz Benedito de Lima Toledo, são três cidades em apenas um século! As duas primeiras com certeza não conheci. Quando nasci, em 1988, já estavam sepultadas pelo concreto armado.
Então, resolvi tomar um atitude. Fui com minha mãe e minha tia (parecíamos até turistas) até o centro da cidade. O primeiro ponto foi, como não poderia deixar de ser, o Páteo do Colégio. O Monumento Glória Imortal aos fundadores estava em restauração na época, o que nos fez ir direto ao cafezinho. Um café num local no mínimo significativo para qualquer paulistano, mas achar um era difícil. O café foi entre turistas. Havia até uma guia de turismo por lá. Eu aproveitei para ouvir o que ela falava para cariocas, gaúchos e um grupo de alemães. Mostrava a vista (a "boa vista") da colina histórica. Um tanto prejudicada por um prédio clandestino que construíram ali. Até hoje, quase três anos depois, ainda não foi demolido, resta abandonado. Enquanto os turistas perguntavam, me deparei com a obra do Fura-Fila, que traumático… Dispensa comentários.
Saímos do Páteo de Colégio e andamos. Andamos. Alguém lembra do livro? Pois é, no livro que acima citei haviam diversas fotos da XV de Novembro. A mais importante rua do comércio chique de S. Paulo, dizia o livro. Centro financeiro! Fotos atestavam o movimento e a importância, numa época em que "todos os homens andavam de chapéu" É, mas onde ela está? Era o que pensava quando num rápido olhar li a placa da rua que, um pouco torta, ostentava "Rua XV de Novembro".
Então era essa a rua que outrora foi a mais, a melhor, o coração de S. Paulo? Bom, a fila anda, e o passeio continua…
Em direção à Pça. Antônio Prado, vi o Banespa que já conhecia bem, e o Martinelli, que ainda me era um tanto estranho. Sabia de sua existência… Será que sabia? Eu não sabia do impacto que um prédio com mais de 20 andares teve na SP da década de 20 ou 30. Tamanho impacto que seu idealizador Giuseppe Martinelli teve que construir sua casa no terraço do edifício, a fim de provar que era seguro. Eu não sabia das histórias da década de 70, quando a degradação quase o levou para sempre. Eu conhecia como um endereço, um número da Av. S.João com a Líbero Badaró.

Na Líbero Badaró:

Havia feito um pequeno planejamento em casa. Constava neste modesto guia uma visita ao "primeiro arranha-céu de S. Paulo", o Sampaio Moreira. Quando chegamos, avistei um porteiro (já "cansado dos anos") e perguntei se podia subir no terraço do prédio. Ele informou que até anos atrás poderia sim subir, mas que alguns visitantes estavam tirando fotos da (magnífica, suponho) vista do Municipal para vender a empresas de turismo. É, acho que eu estava meio entorpecido com o clima nostálgico para achar que seria possível subir no prédio sem marcar hora, ou falar com o administrador (ele me deu até o telefone). Após esse chamado à realidade, atravessei o cruzamento com o Viaduto do Chá sem saber que ali foi assassinado o Jornalista Líbero Badaró. Há nome mais apropriado para um liberal morto pelos agentes do Estado?

No Viaduto do Chá "parei" para pensar. Parei é força de expressão, pois São Paulo não pode parar, ou melhor, o paulistano não pode parar sob pena de ser atropelado. Por um carro, ou pela vida moderna.
Bom, vá lá, parei para pensar que estava dando "nome aos bois". Locais em que sempre passava, agora tinha nome, e mais tinham história. A história de nosso povo.

Há melhor pessoa a ser lembrada quando se fala em história e essência do povo que o melhor compositor brasileiro, o mestre Adoniran Barbosa? Então, foi dele que lembrei. Já gostava (e agora gosto muito mais) de suas músicas, interpretadas pelos Demônios. Lembrei que ele dizia que a Saudosa Maloca, minha música preferida, foi composta por ele no caminho da rádio Record, no Largo da Misericórdia. Tudo bem, mas onde é esse tal largo da misericórdia?
Tinha lido que era na região da R. Direita, mas cadê? Sumiu? Sumiu não, foi engolido; ainda "existe" formalmente, há até uma placa azul (agora branca). Mas com os novos traçados das ruas do centro, foi materialmente sepultado. O prédio da antiga rádio ainda resiste bravamente, há até uma placa fazendo menção ao Adoniran. Mas cadê os bares que Adoniran bebericava honestamente sua dose de pinga com limão?
Sustento aqui que o gosto musical de cada um diz um pouco (ou muito) daquilo que a pessoa é; pensa; acredita. Meu gosto musical é essencialmente paulistano. Ao ouvir um dos vários CDs e LPs (é eu ouço LPs) dos Demônios, ouvi uma música de Paulo Vanzolini. Perdoem minha ignorância juvenil, mas até poucos anos atrás não sabia quem era Paulo Vanzolini. Mas como era incrível aquela música! Tinha uma verdade, uma legitimidade, uma essência familiar. Só depois fui descobrir que ele, mas do que ser de S. Paulo, era a cara de S. Paulo.
Recomendo a todos a caixa "acerto de contas" com 4 CDs de Paulo Vanzolini, uma enxurrada de boa música. O mais incrível para um ipiranguista: o compositor, nas horas vagas doutor em zoologia, trabalhava na Av. Nazaré.

Após este longo parênteses, encerro o passeio pela Pça da Sé. Não é triste saber que muitos tremem só de pensar em passar a pé pela praça? A mesma praça tão íntima de Adoniran (ainda com o Palacete Sta. Helena e sem o metrô) é agora evitada pelos que se sentem seguros no cordão de isolamento (condomínio fechado/ shopping). Que segurança falsa! Temos que viver S. Paulo, mostrar que a cidade é nossa, conhecê-la intimamente como alguém da família, como alguém que amamos.

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