O trotar de cavalos a puxar carroças estalando nos paralelepípedos; o badalar dos sinos de todos os dias; o apito inconfundível da maria-fumaça; as músicas celestiais e fúnebres que ouvíamos vindas do seminário em feriados da Paixão e Finados; o majestoso corredor de árvores (o campo do Guapira à esquerda, logo no início) que formava o caminho de entrada do hoje centenário hospital São Luiz Gonzaga; o aroma adocicado que ficava no ar da pequena fábrica de balas (ficava na Rua Filadelfo Gouveia Neto) e as balas bananinhas que nunca mais revi; a algazarra dos pardais, no lusco-fusco, antes da noite cair no taquaral; o som de água corrente de riachos e córregos e a luz suave dos vaga-lumes; as lembranças tantas das ruas estreitas e distantes da minha infância sem dúvida se dissipam cada vez mais em névoa, tal qual a fina garoa tão comum daqueles dias.
Desde fins da década de 1970, mantinha uma curiosidade acerca da localização dos estúdios da Companhia Cinematográfica Maristela. Apesar de ter sido morador do bairro, desconhecia qualquer informação sobre a sua existência. Uma exposição de fotos sobre a Maristela no Museu da Imagem e do Som (MIS) foi o meu primeiro contato. Dia desses, navegando por sítios de busca na internet, acabei topando com o ótimo “Moro em Jaçanã” de José Eduardo Soares de Castro. Além de trazer a exata localização dos estúdios da Maristela, trouxe-me uma outra grata surpresa: a menção da Aremina, um nome adormecido em algum ponto da minha memória e que me provocou, ou melhor, destampou por contigüidade (como se diz em psicologia) o resgate de lembranças outras deste tempo e lugar e, por tabela, estimulou a redação deste relato. A propósito, próximo à fábrica Aremina havia uma pequena lagoa cujas águas de coloração verde-escura, musgosa, contrastavam com a argila bem branca das suas margens. Ela ficava numa rua paralela à fábrica, a Dr. Nicolino Morena. Hoje, presumo que a lagoa se formara com a ação das chuvas num terreno onde se extraía argila e deveria ser de propriedade da empresa.
Vivi no bairro por três anos, de 1959 a 1961. Foram os anos do Grupo Escolar Júlio Pestana onde estudei desde o 2º (turma da professora Mari) ao 4º ano primário. Morava na mesma rua onde ficava o seminário Camiliano (ficava atrás da paróquia Santa Terezinha), a Roque de Paula Monteiro. Em frente ao seminário havia um grande campo de futebol e recordo que foi aí, chão batido de terra marrom, onde aprendi a andar de bicicleta. Mais tarde, em 1964, no local foi construído o Ginásio Estadual Professor Eurico Figueiredo, o citado GEPEF que aparece nos diversos depoimentos sobre o bairro.
Lembro bem que ainda havia muitos terrenos baldios e as casas, em geral, eram pequenas e tinham quintais; algumas com grandes quintais. As ruas eram de terra batida e somente algumas pavimentadas. O piso do calçamento da Avenida Jaçanã era de paralelepípedo, material empregado também no grande largo que ficava em frente à estação de trem. O largo em arco articulava espacialmente a estação a uma pequena praça arborizada (a Comendador Alberto de Sousa) onde ficava o ponto inicial do ônibus. Na lateral da estação havia um chafariz e um grande cocho que servia de bebedouro aos cavalos, tendo também ao lado, um ponto de parada e descanso de charretes. Na época, não havia muitos carros e o uso de charretes e carroças ainda era uma prática comum.
O Tancão do Piqueri
Algumas vezes, fizemos passeios e piqueniques numa região erma e tranqüila que ficava atrás do hospital São Luiz Gonzaga. Lá havia uma lagoa que era chamada de Tancão. Íamos pela atual Avenida Paulo Lincoln do Valle Pontin que saía lateralmente da Praça Comendador Alberto de Souza. Era uma rua de terra com poucas casas e muito mato pelas beiradas; tinha o cheiro de capim característico dando a nítida impressão que adentrávamos a um mundo de feição rural. Passávamos por uma ponte e no canteiro à esquerda havia uma bica d’água providencial para matarmos a sede. Um adendo: será que ainda estará de pé uma grande árvore que beirava esta rua? Em volta do tronco maior saíam vários outros troncos menores formando um grande tronco que exigia vários braços para abraçá-lo. Uma fotografia, tirada em junho de 1961, testemunha a nossa presença (estavam a minha avó, tios, primos, meus pais e irmãos) junto a esta imponente árvore. Ao final da Paulo Lincoln do Valle chegávamos à Rua Maria Amália Lopes de Azevedo, na época, uma estreita rua de chão batido com poucas casas e suas chácaras com plantações de hortaliças. Era o caminho para o cemitério do Tremembé e passava por trás do morro da Vila Mazzei. O Tancão ficava próximo à confluência destas duas ruas. Na margem direita da lagoa havia uma rua que terminava mais adiante onde havia uma única casa. Na margem oposta, uma grande árvore tombava sobre as águas e servia de trampolim aos banhistas mais ousados. Era muito perigoso nadar nestas águas, diziam. Atrás desta grande árvore iniciava um grande morro de mata fechada. Tinha trilhas, armadilhas para caça de animais e algumas vezes víamos caçadores armados. Os limites do bairro terminavam ao sopé da mata da Serra da Cantareira. Atualmente, a lagoa está soterrada e toda a região transformada e irreconhecível; tornou-se um grande bairro densamente ocupado.
A escola Seifuu-juku e Yamamura sensei
Paralelo ao curso primário, no período da tarde, freqüentava um curso de língua japonesa que era ministrado pelo professor Tamotsu Yamamura. A escola se chamava Seifuu-juku (sei = justiça, retidão; fuu = vento e juku = escola) e funcionava de segunda a sábado numa casa de fundos na Rua Mata Redonda na Vila Nivi. Ali, tínhamos aulas de escrita e conversação em japonês, shuuji (caligrafia a pincel), de desenho, além das saborosas e inesquecíveis narrativas (do tipo, “As aventuras de Robinson Crusoé”, contos fantásticos do folclore japonês etc) contadas por Yamamura sensei (sensei = mestre, professor). Gerações e gerações de crianças e jovens nikkeis (nipo-brasileiras) foram agraciadas com a paciência, tenacidade e generosidade deste sensei imigrante nascido na província de Oita, uma região localizada ao sul do Japão. O professor Tamotsu Yamamura faleceu em 1983 e hoje, há um busto em sua homenagem numa pequena praça (que também recebeu o seu nome) situada na Rua Baltasar de Moraes na Vila Nivi.
O Tramway da Cantareira e o “Trem das onze”
O trem passava a uma quadra e meia da minha casa. Ouvir o seu apito, de uma maria-fumaça ou de uma locomotiva diesel, tanto fazia, era parte de nosso dia a dia. O trem corria em seu próprio leito, ao contrário de alguns locais onde dividia a passagem em meio a carros e pessoas. Em Santana, lembro dele correndo pela Rua Alfredo Pujol e pela Avenida Cruzeiro do Sul. Entre as estações Vila Mazzei e Jaçanã, duas estreitas ruas de terra (tornaram-se a atual Avenida Benjamim Pereira) margeavam os trilhos e havia um trecho, paralelo à Avenida Jaçanã, que ficava num patamar superior formando um barranco em relação aos trilhos e à rua oposta. Muitas vezes, com os colegas do Júlio Pestana, voltávamos caminhando pelos dormentes dos trilhos.
Pois bem, as minhas memórias afetivas do Jaçanã da minha infância ficam por aqui. Em 1965, morando no vizinho bairro do Tucuruvi, vi acontecer o sucesso do “Trem das Onze”. Coincidentemente, no mesmo ano ocorreu a desativação do trenzinho da Cantareira. A bela canção (havia vencido o carnaval do Rio de Janeiro no ano em que a cidade comemorava o seu IV centenário) do genial Adoniran e seu estrondoso sucesso (gravado pelos Demônios da Garoa) brilhou fugaz como uma estrela cadente e tornou o bairro conhecido nacionalmente. Nestes tempos, metade dos anos 1960, ganhava força o processo de consolidação da chamada era da TV (ainda em preto e branco) e da indústria da cultura. Não por acaso, contemporâneo ao “Trem das onze”, lembro de outras canções que também ficaram em minha memória: “The house of the rising sun” e “Bring it on home to me” com os Animals; “Mr. Tambourine man” e “Turn! turn! turn!” com os Byrds; além de “Help me Rhonda” dos Beach Boys; ”Do you believe in magic” dos Lovin’ Spoonful e o hoje clássico do rock “Like a rolling stone” de Bob Dylan, uma façanha, com seus mais de 6 minutos de duração. Alguém ainda se lembrará de algumas destas canções? Mas tudo isto já é uma outra história…
Lançar um olhar ao passado de cada um de nós dando voz ao vivido não é uma tarefa fácil. Os chamados das lembranças teimam vir à tona na linguagem dos sentimentos. Silenciosamente, à revelia, sem qualquer garantia de alegria ou tristeza; nossos sonhos se alimentam dessas ausências.
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