Não estamos no nordeste brasileiro e sim, na grande São Paulo. O sol do meio dia arde no crânio das pessoas. O sol flameja entre o surdo espectro abrasador da luz, como num grande forno a descoberto. A terra parece esquálida e funesta, calcinada no solo estorricado das represas quase vazias, aparecendo nas margens apenas alguns cardos retorcidos, epiléticos, ardentes, irrompendo duro e hostil no solo estorricado e ressecado.
O sertanejo expulso de sua terra natal, morador da cidade grande como São Paulo, conhece bem de perto esse cenário desolador; porém os da cidade, não estão habituados com a grande seca que impera nesta primavera de 2014 e durante o verão abrasador de 2015. Seria esse fenômeno um castigo da natureza pela destruição do meio ambiente pelo homem?
Não sei! Apenas de concreto é que estão secando quase todas as fontes de água potável e os regatos no entorno das grandes represas, resta apenas um filete d'água. O ar quente carboniza as árvores sequiosas de chuvas numa rútila de poeira vermelha de intensas ventosas.
A abóboda do céu parece uma concha de zinco em brasa. Das magras pastagens, os bois escaveirados de olhar moribundo e desesperado, que estão lá em baixo, ao pé do estábulo mosquento de varejeiras verdes, quase sem feno a mugir, por terra abandonados, junto às carcaças dos animais já mortos. É a seca nas fazendas do interior do Estado.
A cidade invoca, implora aos anjos tutelares pela chuva intensa, contínua, que, porém, não está por vir. Os círios nas igrejas da cidade grande e de todo o interior do estado, noite e dia, alumiam a imagem de Maria pedindo numa prece única pelo milagre das chuvas.
Como trêmulos ais de luz agonizantes a erguerem-se para o céu as orações e as procissões ululantes de penitencias e promessas mil, para Deus mandar as chuvas, enquanto os cidadãos da grande cidade estão esfacelando os pés rachados em busca de uma pequeno e miraculoso oasis no meio do arenoso terreno seco.
E, contudo, nessa aridez flamejante, sem um ramo frondoso em que uma única ave cante, nesse ilimitado calor abrasador, a cidade sofre com a grande seca sem trégua nos últimos oitenta anos.
E a tudo isso é que se chama progresso ó Deus desta farsa? Neste mundo burguês, encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral, onde a consciência humana é um monte de destroços. Essa crassa burguesia, essa cínica grotesca, que namora a Deusa da Carne e adora o Deus dos milhões do vil metal. Onde a agiotagem e a usura correm soltas na bolsa de valores, sob a cotação dos fundos das ações. É o rei dominador do mundo, é um senhor vital forte como o conhaque, onde engordai, engordai ó bravos homens sérios, para dar esterco aos cemitérios com seu ouro bancário.
Enquanto isso acontece, o sol flameja entre o sussurro abrasador da luz que queima, evapora, seca os mananciais entre os torrões calcinados do solo vermelho. Onde o cardo retorcido, epilético, ardente, rompendo duro, hostil, como a praga blasfema dum assassino que está destruindo a própria casa onde ele mora sem, no entanto, ter outra onde encostar o esqueleto no miserável corpo.
Secam-se de todo as fontes de captação de águas. O céu permanece azul, enquanto aqui na terra, carboniza as árvores sequiosas pelas aguadas da primavera e do verão.
Estaria o predador metozoário envenenado o asfixiante esplendor da atmosfera esbraseada terrestre com seu gênio destruidor? Estaria a cólera de Deus castigando a cidade nesta aridez flamejante?
Acho que não! Deus é infinito na sua bondade e há de fazer desaguar dos céus, entres as nuvens escuras muitas gotas das chuvas que irão superar as maldades dos racionais para com a natureza e há de cobrir com uma copiosa chuva abençoada a terra ressecada, estorricada. Deus é misericordioso e bom. Ele há de salvar a cidade e o planeta terra da grande destruição.