São Paulo de Piratininga, minha paixão

Escrever sobre São Paulo sempre se apresentou com uma tarefa muito fácil. A maioria dos principais fatos relacionados, a quase toda minha vida, se passou aqui, A partir dos meus 13 anos.
 
Cheguei nesta fantástica cidade cosmopolita, que tão bem recebe seus visitantes, sejam eles turistas ocasionais ou aqueles que para cá se deslocam definitivamente, onde acabam por constituir suas famílias e se tornam tão paulistanos quanto os que aqui nascem.
 
Minha primeira visão da cidade… Tão logo desembarquei na Estação da Luz, naquele longínquo ano de 1957, deixou-me atônito e vislumbrado. Jamais tinha visto tanta gente num mesmo lugar, indo e vindo, se atropelando, ao som das buzinas dos carros, do apito do trem no interior da Estação da Luz e dos solavancos das rodas de ferro dos bondes sobre os trilhos, de onde saiam faíscas incandescentes com um daqueles dragões mitológicos.
 
Vindo de cidade pequena do interior paulista, meus ouvidos estavam habituados aos sons das cigarras cantantes naquelas quentes tardes de verão, somente interrompidas quando raios e trovões antecediam algum temporal. Fora isso, somente o doce e suave cantar dos pássaros, tão abundantes, e o silêncio das longas noites onde só se via o brilho das estrelas e os riscos deixados no céu pelas estrelas cadentes.
 
Lembro-me bem daquele início de noite. Chegamos na Estação da Luz, eu, minha tia Tereza e suas duas filhas, Maria Lúcia e Fátima, pouco depois das 19h, depois de uma fantástica viagem a partir de Mococa, onde apanhamos a jardineira às 10h. Fomos até Santa Cruz das Palmeiras onde embarcamos no trem "Maria Fumaça", da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, às 13h45. Esse trem, que utilizava lenha para acionar suas caldeiras, obrigava todos os passageiros a fecharem as janelas dos vagões, principalmente nas curvas, para evitar a entrada excessiva de fumaça e fagulhas de brasas e carvão carregados pelo vento. Em Cordeirópolis, trocaram a máquina motriz, saiu a "Maria Fumaça" e o trem foi puxado, a partir dali, por máquina a diesel até Jundiaí onde, novamente, houve mais uma troca, passando para uma locomotiva elétrica da Santos a Jundiaí, até São Paulo.
 
Vencidos aqueles quase infindáveis momentos de deslumbramento, tia Tereza, arrastando minhas duas primas pelas mãos, me ordenou que aguardasse um instante com as malas, por que ia buscar um táxi. Foi, também, a primeira vez que ouvi esse nome. Logo descobri que era a mesma coisa que os "carros de praça" de Mococa…
 
O táxi foi abrindo caminho por aquela "montueira" de carros, ônibus e gente, até que chegamos à casa onde moravam meus tios, na Casa Verde.
 
Quando acordei, no dia seguinte, senti um desejo enorme de voltar para a casa de meus pais, na fazenda, tudo aquilo me parecia irreal, alucinação pura!
 
Muito depressa passei a amar São Paulo. Talvez porque não tivera tempo de pensar muito, pois, poucos dias depois meu tio, que era cozinheiro no Bar e Café Senense, na Rua Capitão Salomão, me arranjou um emprego de office-boy na Av. São João, bem pertinho dali. A partir desse primeiro emprego aprendi a conhecer a cidade e seus encantamentos, apaixonando-me por ela.
 
Ao longo de toda minha vida tenho sido uma espécie de embaixador de São Paulo, defendendo-a com unhas e dentes quando alguém, inadvertidamente, tenta macular seu nome na minha presença.
 
Hoje, aposentado e residindo em Jundiaí, a cada 15 dias volto à cidade, dou um giro pelo centro, visito meus filhos e netos, todos paulistanos natos, e somente depois volto pra casa.
 
Como jornalista e publicitário viajei muito por esse Brasil afora e em países do cone sul, e jamais conheci fracasso na defesa desta grandiosa São Paulo de Piratininga, terra de bravos, pois é assim que todos nós devemos chamá-la!