O Pernil do Estadão

Todo mundo gosta de novidades. Principalmente se essa novidade for referente à comida. Porque é chique. Porque está na moda. E a novidade até pode não ser tão nova. Mas desde que se ouça pela primeira vez, para o ouvinte não deixa de ser uma novidade. Foi o que aconteceu com um amigo, o Paulo.
 
Há duas semanas, numa daquelas madrugadas com a barriga roncando, irado de fome, após 3 horas intensas forrozeando num salão de dança, Paulo lembrou que alguém tinha falado de um tremendo sanduíche de pernil que é servido no Estadão. 
 
Coisa inimaginável, inigualável. Oportuna idéia, numa hora dessas, onde a larica bate forte. Uma chance de unir o útil ao agradável e conferir a sugestão.
 
Partiu direto pra Avenida Caetano Álvares, montado em sua moto, com a namorada na garupa. A fome era tanta que não sabia qual o ronco era mais forte: o do motor da moto ou do estômago.
 
Só que o prédio do jornal na avenida tem duas portarias. E ele tinha que ir na portaria errada- a do estacionamento.
 
Chegando à portaria, causou uma certa apreensão nos vigilantes. Quem seria àquela hora montado numa moto, com uma pessoa na garupa, os dois irreconhecíveis atrás de seus capacetes. Lógico, que nessas horas, e atualmente em todas, sempre se pensa no pior.
 
Os porteiros ficaram naturalmente alarmados. Afinal, poderia ser um atentado ao jornal, como eles sempre foram alertados nos treinamentos, ou mesmo, um rotineiro assalto. E ninguém, nessas horas quer aparecer no Datena, principalmente no papel de vítima.
 
Ficaram dentro da portaria em posição de alerta para o que viesse. Até que o meu amigo retirou o capacete. Como ninguém se apresentou, ele resolveu ir a portaria e pedir informação de como chegar à lanchonete.
 
O vigilante de plantão não lhe soube informar o local. E perguntou para seu colega, que também não tinha conhecimento do icônico item gastronômico desejado pelo meu amigo. Mas havia uma ressalva. Eles eram novos no serviço. E ainda tinha a outra portaria do prédio.
 
Sem perder o ânimo, meu amigo agradeceu a não informação e de imediato partiu para a outra portaria. Com certeza, devia ser lá, pensou ele. “Não faz sentido ser na portaria do estacionamento”, continuou em seus pensamentos.
 
Capacete colocado, monta de novo na moto, dá novamente um susto nos vigilantes que cochilavam na guarita e saca novamente a pergunta sobre o sanduíche.
 
E novamente, os porteiros não souberam lhe indicar. Mas esclareceram que várias pessoas passavam por ali, principalmente de madrugada a procura do tal sanduíche de pernil.
 
Paulo, resignado em não conseguir seu intento, retornou pra casa, sem antes parar na carrocinha de dog da Av. Casa Verde. Pensou – ao menos, sacio minha fome e não vou ter pesadelo.
 
No dia seguinte, encontrando com os amigos, ele comentou que havia ido a Avenida Caetano Álvares, ao prédio do Estadão e que ninguém sabia do tal sanduíche. Foi ai que alguém disse que, se ele tivesse a assinatura do jornal talvez soubesse que o tal sanduíche fica mesmo é na Avenida São Luiz, onde era antigamente o prédio do jornal.
 
Quer dizer o jornal mudou de endereço, mas o sanduíche não. E o pior, esqueceram de avisar meu amigo, que não desisti nunca, principalmente se for por alguma novidade gastronômica.