Por um Natal maior

Quando chega aquele tempo ensolarado, ainda primaveril, com perfumes das flores cantando “oh! abre alas, que eu quero passar”, aprece até que o monóxido de carbono resolve, um pouco, se recolher aos seus limites e crueldades. Chega o tempo do sol de quase dezembro, eu voooou… os planos se desenham com olhar mais alegre e brilhante.
 
Os lojistas se preparam para comemorar, falar de tantos por cento do aumento do faturamento em “relação ao mesmo período do ano passado”. Que coisa chata ouvir isso!
 
E como são convidativas as luzes, as cores, as carinhas gorduchas de tantos Papais Noéis espalhados pelo Brasil varonil e todos fazendo rou rou rou… muita magia, promessas e esperanças de bons presentes! 
 
A ceia tão especial, o pernil douradinho, o frango assado e aquela crocância de despertar o apetite e a atenção, o arroz com passas, a maionese gelada… alguma novidade e o panetone cortado em fatias um pouco mais generosas. Fica muito bom também com o café, logo cedo. As sobremesas… tem que ter mousse de maracujá, algum sorvete. O cardápio é prá lá de criativo e convidativo a uns quilos a mais. Tem nada não: na segunda a gente começa o regime e vai prá caminhada… Sem contar a eterna cantilena: “não como para estar desse tamanho. O meu problema é genético”…
 
Ah! O barulho dos papeis de presente… que gostosura o farfalhar do celofane, dos pacotes cuidadosamente elaborados, as fitas que caem e ficam esquecidas no braço do sofá até o dia seguinte… O selinho estampado “com carinho” ou com “boas festas” rapidamente se rasga e se confunde com o papel que vinha embrulhando a garrafa de vinho da promoção para aquele tio que não bebe, mas foi o que deu prá comprar.
 
É rápido e tudo acaba. Rápido demais. Depois, tem a louça para lavar. Haja copo! Limpar a casa, dobrar os papeis de presente e colocá-los na reciclagem. Curtir os presentes novos. Pronto: acabou. É finito.
 
Eu penso que o Natal pode ser bem mais duradouro. Até porque fico pensando no aniversariante lá em cima, penduradinho numa nuvem, pensativo, balançando as pernas, coçando a barbinha e perguntando: “e eu?”
 
“É meu aniversário e poucos se lembraram de mim, de me abraçar, de dizer que gostam de mim e que a minha dor serviu para que o mundo pudesse se transformar”.
 
Possivelmente o aniversariante está olhando abismado para os abraços sinceros que não existiram, as declarações de respeito que ficaram para depois, o sorriso verdadeiro com o sabor da vitória pela superação de tantos dramas do cotidiano, a gratidão pela vida, o mais adorável presente dado pelo Pai Eterno, também ficaram para qualquer hora.
 
Acho que não deu tempo. Quem sabe muitos se esqueceram de abraçar e pedir perdão pelas agressões, pelo descaso, pelo desprezo porque estavam fazendo um selfie e postando suas curtidas no facebook. Afinal, ninguém é de ferro, convenhamos!
 
E eu continuo acreditando que o Natal pode ser bom e durar mais tempo. A sua preparação deve começar a cada primeiro de janeiro. Internamente, com calma e decisão, amor e gratidão, construindo o presente para o aniversariante: o agradecimento a toda a espiritualidade deve começar logo pela manhã, a honra ao pai e à mãe deve ser burilado dia após dia, o amor ao trabalho honesto deve estar incorporado na carne qual tatuagem para toda uma vida. 
 
O valor ao conhecimento também deve estar impregnando a alma e esse saber tem que ser sempre dividido para que a humanidade tenha sempre condições de evoluir. O respeito com a vida, a sociedade, a coisa pública, a ética, a humildade e a decência sejam aprendidos na barriga da mãe, bem antes da saída da maternidade. E que a paternidade seja responsável e amorosa. E que todas as religiões falem aos corações. E que as escolas falem alto e com decisão sobre ganhos e perdas e não pratiquem nenhum ato de apoio ao desleixo moral.
 
E que os avós sejam ouvidos e respeitados. E amados. Acariciados. Sejam benditos.
 
Um Natal que continue em fevereiro mesmo com o carnaval. Em março com a chegada do outono… Que os ventos uivantes da estação levem para longe a nossa descrença, o desânimo, a ingratidão e a solidão. Levem também o nosso orgulho, fonte de tantas maldades.
 
Que no Natal se abrace. Que tenhamos a coragem e a sensatez de abrimos os braços qual Cristo Redentor para nos aproximarmos dos nossos iguais e passarmos a energia, coração com coração, tocarmos nos rostos com alegria, nos colocarmos à disposição para que Jesus entre no peito qual luz eterna. Sem medo.
 
Desejo a todos um Natal em que possamos ter a coragem de exercitar o amor ao próximo, de não nos envergonharmos do nosso tamanho tão diminuto e que possamos rir das nossas próprias limitações e nos aproximarmos do outro como quem busca e pode dar afeto, sopro de vida, mais vida. Que tenhamos a coragem de aprender a falar. Sim: falar com responsabilidade e não dispararmos contra aqueles que não acreditamos ou não aceitamos por nos acharmos grandes demais.
 
Um Natal do abraço apertado, quente, para ficar inesquecível. Com amorosidade intensa. De alma inteira. Com exercício do perdão por mais difícil que ele seja. Um abraço de acolhida… por toda a vida.