Fim de mistério

Escrevi, já faz tempo, “Balada para um louco”. Inspirado na música de Piazzola, era o segundo capítulo, iniciado com “A Voz da Lua”, sobre uma estranha senhora do Brooklin e sua misteriosa casinha. Contei que a tínhamos visto passar várias vezes pelas ruas do bairro, algumas vezes bem composta e tranquila, e outras andrajosa e desvairada.Tudo isto foi publicado neste site.
 
A casinha, meio arruinada e com as portas abertas, continuava numa das quadras da movimentada Rua Califórnia. Como a dona, às vezes limpa e arrumada, outras com lixo e restos de comida na frente, com alguns gatos de permeio. Animais bonitos, pretos e brancos. Bem, ao menos a senhora gostava de animais, e isto sempre é um bom sinal.
 
Ficamos um bom tempo sem passar por ali nas nossas caminhadas matinais. Mas sempre que passávamos de carro, uma olhada na casa.  Ultimamente, modificações. Para melhor, ou a situação teria se degringolado? Uma van estacionada no jardim, pilhas de madeiras. Estaria a casa em reformas? A dona continuava ali?
 
– Acho que se foram – disse minha mulher. 
 
Hoje passeamos pelo pedaço, e realmente a casa estava desabitada, com muita madeira espalhada pela frente. Finalmente, coisa que há muito gostaria de ter feito, interpelei um simpático senhor que guarda o portão de uma casa vizinha, a qual, segundo contou ele, é uma clínica. E psiquiátrica, por curiosa ironia.
 
– Morreu – disse ele – A coitada bebia demais… foi cirrose. 
 
E entrou em detalhes, realmente espantosos, de uma vida que jamais imaginaríamos.
 
Ele a conhecia, e também sua família, há vinte e cinco anos, tempo no qual guardava o portão da clínica. Gente distinta, ela fora professora de inglês e piano, e também professor tinha sido seu pai. Nos primeiros tempos, passava imponente, sem olhar para ninguém. Mas, com a separação do marido, entrou em depressão e iniciou-se na bebida sem controle.
 
E não tinha jeito, às vezes estava sóbria e tudo normal. Mas retornava ao vício, piorando cada vez mais. Então não era louca, como supusemos, mas o uso do álcool foi-lhe danificando o cérebro. Há umas semanas foi encontrada desacordada na casa. Levada a um hospital, faleceu em oito dias.
 
– Foi melhor assim, disse o guarda. 
 
– Mas, e os gatos? – perguntei, preocupado com os animais. 
 
Ele havia adotado um deles, e bondosos vizinhos se encarregaram de acolher os outros dois.
 
E assim termina a história da casa do mistério. Capítulo final de um caso que nos intrigava há anos. Despedimo-nos do bom Sr. José, que continuará guardando o portão da clínica, como faz há tanto tempo.
 
Acabou-se a história, morreu a Vitória; quem quiser que conte outra história.