O dia em que um Varzeano jogou ao lado de um Titular da Seleção Brasileira de Futebol

No início da década de 40, a dupla de zagueiros da Seleção Brasileira de Futebol, era formada por Domingos da Guia (o mestre), pai de Ademir da Guia (o divino) e Norival (marcante zagueiro do Fluminense e Flamengo nessa época). Aos 32 anos Norival teve uma curta passagem pelo Corinthians e tendo recebido uma proposta do Milionários da Colômbia, acabou aceitando, tendo ficado por duas temporadas naquele país. De volta ao Brasil, no final de 1951, veio diretamente para São Paulo e, especialmente para a rua onde eu morava e bem próximo da minha residência.
 
Nessa época, com 18 anos, eu jogava no 1º quadro do Extra (hoje juniores) do General Couto de Magalhães, famoso clube varzeano das décadas de 30, 40 e 50 do bairro de Vila Nova Conceição. O campo do Couto Magalhães ficava entre a Avenida Santo Amaro (altura do nº 1200) e o final da Rua João Cachoeira, ladeado pela Rua Santa Justina. O Extra jogava pela manhã e o time principal no período da tarde.
 
Norival conhecendo o clube, no início de 1952 se ofereceu para jogar. Foi uma alegria geral. O time principal que já era bom, ficou ainda melhor. Normalmente torcedores e simpatizantes do clube chegavam próximo de mil assistentes em torno do campo em dias de jogo. Com a participação de Norival, quase que dobrava, pois era famoso na época por ser titular da Seleção Brasileira pouco tempo antes.
 
Coincidindo com a chegada de Norival ao clube, fui transferido para o 2º quadro do time principal. A partir daí, sempre nos encontrávamos e quando soube do meu sobrenome, contou que quando estava no Fluminense jogou com o goleiro argentino Capuano, que posteriormente veio para o Santos e na estreia sofreu um grave acidente que o fez encerrar a carreira no futebol. (Com 9 anos assisti esse jogo e contei a história neste site publicada em 19/10/2011 com o título "A trágica estreia de um goleiro argentino").
 
Como morávamos próximos, ele esteve algumas vezes em minha residência, acompanhado de sua esposa e um filho de uns 10 anos. Em uma das vezes, veio com um álbum com fotos de quando jogava na base (Madureira – RJ) até a Seleção Brasileira.
 
Decorridos alguns meses, o time principal do Couto Magalhães recebeu um convite para participar de um festival de aniversário de um clube famoso, na época de Vila Galvão. O convite especificava a presença do 1º e 2º quadro. O 2º quadro (em que eu jogava) jogaria pela manhã e o 1º quadro no período da tarde. Todos os componentes do clube, jogadores do 1º e 2º quadro, alguns reservas, diretores e vários torcedores, partiram no mesmo horário, pois o convite mencionava que na hora do almoço haveria churrascada e chopes à vontade.
 
Cerca de 15 minutos após a chegada, o técnico Pepe, chamou os jogadores do 2º quadro para o vestiário. Quando o técnico ia começar a distribuir as camisas, entrou no local Norival dizendo: “Pepe, eu quero jogar no 2º quadro. Quero jogar na linha, na meia esquerda fazendo ala com o Capuano (eu era o ponta esquerda)”. Foi surpresa feliz para todos, principalmente para mim que iria jogar ao lado de um profissional diferenciado.
 
O jogo começou e, em menos de cinco minutos, eu abro a contagem com um gol de cabeça (com 1,61m me coloquei no lugar certo e no momento certo). A partir daí começa o show do Norival. Dominava a bola com perfeição. Me fazia passes milimétricos que me facilitava o domínio da bola. O jogo terminou em 7 a 1 para o nosso time. Norival, além da excelente exibição, fez 4 gols, todos de fora da área, sendo 2 de faltas e 2 com a bola rolando.
 
Dentre as muitas jornadas alegres no mundo do futebol amador, essa foi sem dúvida a mais feliz, por me fazer sentir profissional por um dia. Mas, no jogo seguinte voltei a sentir o que realmente era: um varzeano!