Em uma antiga casa, na Rua Lino Coutinho, no quarteirão entre as ruas Lucas Obes e Almirante Lobo, meu tio Luiz mantinha no barracão dos fundos uma pequena oficina. Ele era mecânico de manutenção da antiga Fiação Ypiranga Assad – hoje já extinta. No seu lugar existem vários conjuntos de apartamentos).
Nesse local, também ficava a velha bicicleta que ele me autorizava a usar mas, com a recomendação de tomar muito cuidado. Para poder usufruir da bicicleta eu tinha que ajudar na montagem de um tear, que ele estava montando por conta própria com peças que ele mesmo mandava fazer.
Tinha eu, na época, pouco mais de 10 anos e, por volta das 16h já me dirigia à casa do Tio Luiz. Eu gostava de mexer nas ferramentas e essa era a hora que ele voltava do trabalho. Ele chegava e a primeira coisa que fazia era ligar o rádio na Bandeirantes para ouvir o programa denominado RE-FA-SI que só tocava tangos argentinos (na época a música portenha era muito divulgada).
É por isso que hoje eu gosto muito de ouvir os velhos tangos interpretados por Carlos Gardel, Libertád Lamarque, Hugo Del Carril, inclusive tenho vários CDs do Gardel. Por coincidência, tenho um vizinho que quase todas as noites toca seu piano. Na última quinta-feira, tive o prazer de ouvir uma seleção de tangos que ele tocou, fechei os olhos e logo me vieram à mente os felizes momentos que passei na minha infância e ainda soam em meus ouvidos os acordes das músicas daquele tempo:
"Volver, con la fronte marchita… las nieves del tiempo platearon mi sien…"
"Golondrinas de um solo verano, con ansias constantes de cielos lejanos…”
"Ya no tengo la dulzura de sus besos, vago sola por el mundo sin amor, Otra boca más feliz será la duena, de sus besos que eran toda mi passión…”
"Adiós muchachos, companeros de mi vida, barra querida de aquellos tiempos, me toca a mim hoy emprender la retirada, debo alejarme de mi buena muchachada…”
"Caminito que el tiempo ha borrado, que juntos un dia nos viste pasar, he venido por última vez, ha venido a contarte mi mal….."
“Eche, amigo, no más; écheme y llene, hasta al borde la copa de champán, que esta noche de farra y de elegria, el dolor que hay en mi alma quiero ahogar…”
"Si supieras que aún, dentro de mi alma, conservo aquel carino, que tuve para ti….”
"Inútil pesimismo, deseo de estar triste, mania de andar siempre pensando en el ayer, fantasmas del passado que vuelven y que insisten, cuando en las tardes tomo mi taza de café…."
Lembrei-me também dos salões de baile que freqüentei, já na mocidade, onde também lutava para dançar o tango com floreios, mas não consegui muito sucesso.
Recordei as noites do antigo Piratininga, um salão de bailes que ficava num sobrado na Rua da Moóca, lá conheci um dos melhores dançarinos de tango, seu nome era Mário, hoje infelizmente já falecido.
Velhos tangos, velhas lembranças que às vezes teimam em povoar meus pensamentos, mas que me trazem momentos de alegria que se foram e não voltarão jamais.