Leseira

“O crack é leseira. Agora tô só na cola”, disse e sentou-se.
 
“Para comprar uma pedra, preciso de dez reais. Já a cola, com dois ou três, eu consigo.
 
Ela ficava sempre no Centro. Falei que quero ser o homem da sua vida. Qual homem que hoje em dia quer uma mulher pra sempre? Eu vejo tanto homem por aí batendo, barbarizando, cheio de ciúme. Eu não. Se ela quer sair com outro que saia. Nem tenho ciúmes. Vou prometer tudo na quarta-feira, que é o dia da visita lá no cadeião. O que me azara é que ela fala pras amigas que sou seu amigo. Só quero que ela reconheça. Os bacanas amigos dela, até agora não apareceram lá na visita. Nem trazer um pão sequer. Eu não. Eu venho.
 
Bem sei que qualquer um que está na cadeia, acha que todo mundo que está aqui fora, é bom. Eu já passei por isso. Não tanto tempo quanto ela.
 
Pô! Ela já tem três filhos, tá ligado, cara? Um sumiu. Ela nem sabe quem roubou. Outros dois, tão com gente da igreja. Falo pra ela: ‘vão crescer e acabar na rua como nós’. Quero levá-la pro caminho de Deus. Se é difícil pros que estão fazendo a coisa certa, pra nós então, é mais difícil ainda.
 
E quero ter um filho com ela. ‘Aqueles’, nem ela sabe de quem são. Quantos anos ela tem? Dezenove. Eu tenho vinte. Conhecer melhor? Não, cara. Conheço ela muito bem. Desde criança.
 
Só uma coisa eu vou prometer e sei que não vou cumprir. Ter um pouquinho de ciúme. Isso eu vou sim. Ela tá bonita demais. Até engordou um pouco, na prisão. Gosto tanto dela! Adoro mulher de olho verde. Ou será azul?
 
Quando ela queria sair, nem implicava. Nem com roupa, nem com horário, nem com os caras, nada. E comigo ela não decide, pô! Falo pra ela: ‘Caraio! A visita só tem três horas e você me larga para fumar maconha lá no canto! Fica rindo com as amigas.’
 
Vou indo. Acha que ela me ama? Vou lá falar com ela. Olho no olho. Bem assim como nóis agora, né tia?”