Final de Semana

Nesse domingo, 28 de Setembro, com a graça de Deus, cheguei aos 70 anos de idade. Acredito que o sopro divino do criador Deus Pai me privilegiou. Já o meu papai nos deixou com 62 anos, e os meus dois irmãos mais velhos nem chegaram aos 40 anos de idade. A mamãe nos deixou no ano passado chegando aos 94 anos de idade. Tem o irmão caçula vindo ai atrás com seus 68 anos. 
 
Estava aqui pensando com os meus botões como é maravilhosa a nossa mente, ou o nosso “HD”, onde estão armazenadas todas as informações da nossa existência. Acredito que o nosso “HD” bate facilmente qualquer super computador que guarda uma infinidade de informações, nem sabendo direito quantificar os números de bytes que eles podem armazenar. 
 
Consultei o meu “HD” e voltei aos meus 14 anos de idade, ou seja, voltei 56 anos atrás. Estou eu no Bairro do Tatuapé, na Rua Felipe Camarão, 267. Puxa vida, como são ricas as informações detalhe por detalhe. As pensões em frente de casa. Na esquina de um lado, a pensão da Dona Geralda e do outro lado o bar do português, Sr. Ivo. 
 
Hoje, no local que o Colégio Estadual Prof. Oswaldo Catalano está localizado, era um matagal onde tínhamos nosso campo de futebol na época. Entrando em casa da para ver cada detalhe daquele tempo em cada cômodo. Nosso quarto com as camas do Antonio Carlos, a do Plínio e no outro canto o beliche, onde dormíamos eu e Paulo. Eu, claro, dormia em cima. 
 
No quintal, o muro baixo que separava nossa casa com a da Dona Maria. Os dois gatos da mamãe, a gata preta e o gato rajado amarelo. 
 
Nessa idade, com a primeira carteira assinada, estava trabalhando no centro de Sampa, na Rua XV de Novembro em um banco. Para se deslocar até o centro havia duas alternativas: ir até Rua Tuiuti e apanhar o poeirinha em frente ao Colégio Espirito Santo; ou subir dois quarteirões e pegar ele na Rua Cristais, mas já teria que ir em pé. 
 
Descendo a Rua Felipe ficava a Avenida Celso Garcia, onde tinha muitas opções e até o bonde. O chato de trabalhar no banco é que tínhamos que trabalhar de terno e gravata, mas eu sempre deixava o paletó e a gravata lá no setor. 
 
Já pensaram andar de ônibus lotado com aquela camisa “volta ao mundo” (acredito que muito de vocês conheceram)?  Nem imagino que tecido era aquele que não amassava e nem deixava transpirar. A ordem do gerente ao ascensorista era que nenhum dos funcionários poderia subir de elevador sem a gravata, principalmente os motoboys. 
 
Ainda bem que eu trabalhava no segundo andar. Bem me deixem verificar aqui no “HD”, afinal o tema ou o assunto é fim de semana. Ai está “sábado”. Logo cedo, após o café da manhã, seguia para o clube do Corinthians, onde era sócio, para jogar bola com a minha turma de lá. 
 
Após o futebol, uma chuveirada e voltar para casa, para o feijão com arroz da Dona Helena. A tarde ia assistir o futebol no campo do Urca que ficava na Rua Teixeira de Melo, onde hoje é o Senai. 
 
Os amigos eram o Viola, os gêmeos Carlos e Sadala e o Edson Bras. A noite após a reunião do Congregados Marianos da Igreja Cristo Rei, na Rua Maria Eugenia, íamos comer uma pizza na Padaria Vera Cruz e assim que iam chegando os outros colegas, que foram ao cinema ou foram namorar, seguíamos para a casa do Gerson, filho do Sr. Jean, jogar cartas e encerrar o dia de sábado. 
 
Domingo cedo tinha missa das sete horas dos Congregados Marianos e das Filhas de Maria. Entravámos na igreja cantando o hino da mocidade católica:
 
Mocidade brilhante e sadia, sai da inércia em que estás!
Renuncia à inação criminosa! De pé! De pé!
Deu a voz de comando Pio Onze:
Carrilhonam os sinos de bronze
E descem do alto seus brados de fé.
Leva contigo como penhor, o lenho amigo, a cruz do amor!
Sorri fagueiro ao teu Brasil! Olha o cruzeiro no céu de anil.
Luz refulgente, brilhos do céu, que em nossa mente Deus acendeu.
Não esmoreças! Sempre de pé! Não esmoreças da santa fé!
Era de arrepiar, bem para aqueles que têm fé como eu…
 
 
De volta para casa para me deliciar a macarronada da mama. Passando pelo corredor, olhei para dentro do quarto da mamãe, e lá estava estendido sobre a cama o terno azul com o paletó tipo jaquetão, com quatro botões na frente, feito sobre medida no alfaiate do Sr. Chimada da Vila Mariana. A camisa era confeccionada na Galeria Barão da Barão de Itapetininga na loja do Sr. Antonio, também sobre medida. Camisa com gola italiana bico de pato e nos punhos duplos ia aquela abotoadura de madre perola. 
 
O sapato era de salto carrapeta para os pés de valsa da época. Banho de meia hora, brilhantina Glostora no cabelo, e aquele perfume “lancaster”. Os Clubes eram: o Clube 13 de Mario e o Clube Homs, mas, o mais frequentado por nós era o de Guarulhos, que infelizmente não me lembro do nome, mas lembro-me de cada detalhe do salão. 
 
Será que tem vírus ai? Aquele samba saltadinho era o meu fraco, só ficando na coruja espiando. Agora o Rock and Rol nossa turma arrasava, mas o bom mesmo era os boleros. Dançava-se tetê a tetê com os rostos colados e, dependendo da companheira, cantarolávamos as musicas ao pé do ouvido. 
 
Voltávamos para casa contentes e aguardando o que vinha pela frente na próxima semana. Seis da manhã o rádio do meu irmão Antonio Carlos, ligado na Rádio Eldorado com o programa “Jornal de Meia Hora”, informava a hora e tocava a música do anunciante que era da marca de um café da época que também não lembro do nome. A música era do cantor Roberto Luna, “Bom dia Café”:
 
Bom dia, café!
O café que a gente toma,
E que tem o doce aroma,
Desta terra primaveril.
 
Acredito que Deus colocou cada um de nós, escritores aqui do “SPMC”, no seu bairro certo, onde fomos muito felizes. Pensando no bairro do Tatuapé, tenho certeza que teria que estar lá, não podia ter sido outro bairro. Acredito que todos devem ter o mesmo pensamento.
 
Vou desligar o meu “HD” pensando: quantas histórias podem estar armazenadas nesses setenta anos de idade, para contar a vocês nesse espaço? Abraço a todos os meus amigos aqui do site.