A rua onde nasci era de terra, e quando chovia, para desespero de minha mãe, transformava-se em um "mar de lama". Mas calma! Sou de um tempo em que "lama" era simplesmente água misturada com terra, que depois virava barro e servia para a criançada fabricar pequenos utensílios, como: bonecos, vasos, panelinhas..etc..<br>Aí veio o progresso. Calçaram a rua para alegria de minha mãe e para o sofrimento de nossas canelas, joelhos etc…Tenho marcas até hoje, dos tombos e raladas nos paralelepípedos.(?) <br>Era uma rua eclética. Tinha belos sobradinhos, cortiços, casas feias, bonitas e alguns botequins. Tenho tantos personagens na lembrança, que ainda podem render muitas estórias. Havia um bêbado maltrapilho apelidado de Chora-Rita, que sempre tocava a campainha lá de casa e cantava uma música para minha mãe. O pagamento pelo "show" era uma refeição servida em uma lata de goiabada, com um copo de Qsuco de uva.<br>Mas nem todas as lembranças são de alegria. Havia uma senhora que os vizinhos chamavam de "mulher de vida fácil” ou "mulher falada". Acho que era mais pela maneira que se vestia, com roupas justas e decotadas e pelas cores fortes que usava para pintar seu rosto. Usava tb cabelos compridos e ondulados. Ela tinha um casal de filhos já adultos e o marido, era um homem muito simples. Minha mãe era uma das poucas pessoas que mantinham contato com ela. O filho trabalhava no Edifício Joelma, e quando veio a notícia do incêndio, ela foi correndo até nossa casa, para usar o telefone e tentar falar com o setor onde ele trabalhava. Enquanto ela tentava, eu, minha mãe e meus irmãos, víamos pela TV, aquelas cenas chocantes e o nome do filho estava lá na lista, confirmado como "primeiras vítimas". Foi muito triste ver o desespero daquela mãe por tamanha perda. Tempos depois uma doença incurável tb levou sua filha.<br>Por tudo isso, fiquei com a certeza de que… "A vida é que não foi fácil para aquela mulher", que, simplesmente, gostava de se pintar e se arrumar mais que as outras.<br>Lembro-me dela sempre com muito carinho.<br>Bernadete<br><br>e-mail do autor: [email protected]