Memórias caprinas

Anos 50, a Rua Augusta era ainda uma rua romântica, prédios quase nenhum, na sua primeira parte (da Rua Martins Fontes até a Avenida Paulista) as casas eram maioria.
Os transeuntes ainda se vestiam com uma moda formalíssima os homens com pesada fatiota de casimira inglesa de cores neutras e escuras, eram os ternos de outrora (calça, colete e paletó), complementados por sapatos de pelica e com a cabeça coberta, na maioria das vezes com chapéus da Ramenzoni.
Muitos ainda se faziam acompanhar por bengalas que lhes davam um ar de nobreza absoluta.
As damas, com vestidos sombrios e compridos até a altura das canelas, meias de nylon mais grossas e, lógico, de pouca transparência. Trajavam, ainda, invariavelmente por baixo dos vestidos combinação e sutiã discretos e, quando o vestido era rodado, usavam ainda umas anáguas (sobre-saias) bastante engomadas. Portavam, também, quase sempre uma sombrinha que lhes protegia dos raios do sol.
O comércio dessa Rua era ainda bastante discreto e formado de empórios, farmácias, sapatarias, e bares. No quarteirão compreendido entre a Rua Marquês de Paranaguá e a Rua Antonia de Queiros, além desses estabelecimentos, tínhamos uma loja de Podólogos (na época calistas ou pedicuros) que tinha o sugestivo nome de “SALVA-PÉS”, onde trabalhava uma baiana amiga de minha mãe de nome Eolina. Essa loja ficava do lado par da rua e um pouco acima de um bazar de artigos finos que vivia encomendando bordados finos em ponto cruz à minha mãe que bordava divinamente e, assim, aumentando os parcos rendimentos da família.
À frente do “SALVA-PÉS”, ficava um sobrado muito grande onde estava montado um Buffet de grande renome na época, era o Buffet João Freire.
Sempre que eu passava à sua porta, o aroma dos quitutes e iguarias era atormentador e me enchia a boca d’água. Mas, confesso, o que mais me interessava naquela casa, não eram os doces e os salgados, eram as filhas do seu João, lindas meninas que muito poucas vezes me deram uma simples olhadela.
Este era o cenário normal além dos bondes (camarão e aberto) dos carros, alguns ainda à gazogênio e, claro, o motivo principal desta memória.
Era a cabrada que, todas as tardes, descia a Rua Augusta com o seu pastor a guiá-la e com uma barulhenta e característica sineta anunciando sua chegada.
Eu, claro, aguardava esse momento sublime e, mercê dos bordados que minha mãe fazia, estava capacitado a chamar o pastor e com uma caneca de alumínio na mão, pedir-lhe uma porção daquele liquido delicioso.
Só de lembrar sinto a boca salivar. Era muito bom São Paulo naqueles tempos.

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