Era um sonho dantesco… o tombadilho….

Ao ler um texto de nossa amiga Walquiria, do São Paulo Minha Cidade, resolvi tentar escrever o meu.
 
Nos anos 50, trabalhava como “office-boy” num escritório de um despachante, na Rua Sete de Abril, nº 264-10, andar-sala 10/11 (o arquivo, às vezes, ainda funciona). Era meu primeiro emprego.
 
Estudava no Ginásio Alexandre de Gusmão, no Ipiranga. No período da tarde, apesar de toda a correria, lá ia eu percorrer as ruas centrais, carregando enormes livros de contabilidade, para registro nas recebedorias federais ou estaduais ou juntas comerciais. Respectivamente: na Florêncio de Abreu, Brigadeiro Tobias, Barão de Itapetininga… Além de outras repartições públicas, ia aos bancos receber valores relativamente altos. Punha o dinheiro numa pequena pastinha de couro, e o entregava ao destinatário, sem sustos ou medos… Às vezes, percorria a pé, pra economizar o dinheiro da passagem do bonde que o patrão havia fornecido. Passava pela rua Marconi e o cheiro de baunilha de uma doceria era provocante. Conhecia quase todas as ruas do centro, das menores às mais importantes.
 
Mas eu, apesar das agruras da vida, morando num cortiço, filho de pedreiro que lutava para dar algo melhor aos filhos, era um privilegiado. Conseguia estudar numa escola pública, onde, entre outras coisas, se aprendia a história da cidade de São Paulo. Lembro-me que naquela época, o Rio de Janeiro tinha uma população de 1,5 Milhões de habitantes e São Paulo apenas 1 milhão. Porém em São Paulo se "construía uma casa por dia", mostrando a pujança e a grandeza que nos esperava.
 
O Brasil era um país agrícola e dependia basicamente, da exportação de café, para custear as importações de máquinas, caminhões, tratores, automóveis e outras necessidades.
 
Mas o ufanismo de que o Brasil seria o país do futuro nos contagiava. Líamos autores que nos entusiasmavam: Castro Alves, Afonso Celso, Gonçalves Dias e outros.
 
Acordei…
 
O Brasil hoje é um país com peso no cenário internacional. São Paulo é uma das maiores cidades do mundo.
 
Hoje moro no interior do estado, numa “ex-pacata” cidade perto de Campinas.
 
Há algum tempo acompanhei meu filho mais velho, numa consulta para o meu neto. Era um ortodontista, que tem seu consultório numa rua ao lado da Biblioteca Municipal. Paramos no estacionamento do prédio, subimos até o consultório, onde o referido profissional nos recebeu.
 
Um senhor bem velhinho (eu estou nos 75), atendeu o neto, e meu filho contou-lhe, que eu fora office boy na região, nos anos 50, e que há muitos anos não voltava ao centro de São Paulo. Ele pragmaticamente me disse:
 
– Não queira andar pelas ruas que você conheceu… Será melhor pra sua alma! (sic)
 
Não acreditei e fomos.
 
Desespero ao ver o calçadão da Barão, tomado por pobres criaturas, deitadas nas soleiras, trôpegas, desfiguradas… 
 
O texto da amiga Walquiria, passa melhor o sentimento de impotência que sentimos.
 
Só pergunto onde foi parar o nosso crescimento econômico, nossa dignidade. A arena de luta por dias melhores, tornou-se o que?