Foi nos meus tempos de sexta série que tomei o primeiro contato com a língua francesa. Fascinante, foi o momento de aprender a cantar a Marselhesa e mesmo outras músicas mais populares. O professor, austero e conservador, não se conformava com os destinos da cultura do pós-guerra.
Não tinha jeito: terminada a II Guerra, o Inglês se impôs como língua dominante, bem como a moeda – a ideologia então, nem se fala. A língua de Voltaire, de Rousseau, de Montesquieu, de Rabelais e toda a glória deixada pelos iluministas ficaram abafadas, pelos avanços da superpotência hegemônica e não havia discussão. As propagandas, o avanço da sociedade de consumo, a difusão dos shoppings, o rock nos convidavam a mergulhar num mundo bem menos filosófico, menos humanista, mais competitivo e muito mais carregado de individualismo. O sonho do consumismo passou a povoar as mentes e a busca da essência do homem foi ficando cada vez mais incômoda.
Em 1971, eu cuidava do meu caderno de Francês com um zelo extraordinário, como vim a cuidar dos meus futuros cadernos de História e de Literatura.
O meu colégio, hoje centenário Nossa Senhora da Glória, próximo ao largo do Cambuci, foi um dos espaços culturais mais importantes da minha existência. Ali comecei a minha caminhada, valorizando o aprendizado, lento e dificílimo para mim. E fui percebendo o valor do esforço, da acolhida e do apoio de alguns professores. Sou muito grata a esse colégio, que me abriu portas para o mundo. Mas foram apenas dois anos de aulas na língua de Diderot. A língua inglesa foi se colocando no nosso calendário, nem pedindo licença para as outras disciplinas. Sentou-se no colo da grade curricular e nunca mais saiu. A língua do dominador veio pra ficar.
Quase três décadas depois, meu marido e eu resolvemos nos matricular na Aliança Francesa de Florianópolis.
Mas com quem deixar o filho recém-nascido? A solução: eu iria às aulas às segundas e quartas e o Nelson às terças e quintas. Feito.
Muitas alegrias. Filho pequeno, pais estudantes, novas possibilidades e nada de ficarmos nos contentando com o conhecimento até então adquirido.
Mas o que também é vital: a brincadeira. Logo na época da matrícula, o Nelson percebeu que havia uma professora muito bonita, elegante e simpática. Não tardou que chegasse para mim, cheio de entusiasmo, e dissesse:
– Você vai ver, vou ter aulas com aquela professora loirinha. Ela vai me ensinar a falar “mon amour”, “mon chéri”, “bien, merci”. Vai fazer biquinho dizendo “jê t’aime”.
– Sim, vamos ver. Eu também não vejo a hora de começar.
E lá ficou o meu marido a me infernizar e eu a rir de tanta bobice.
Barulho de chave na porta.
– Filho, o pai chegou. Vem no colo, filho fofo, vem. Vamos perguntar pro papai como foi a aula.
– E aí, Nashinho? Teve aula com a professora loirinha?
– Não. O professor é o Pierre.
Sem ser racista, mas o Pierre era um baita de um negão da Costa do Marfim. Rs rs rs rs rs.