E durma-se com um barulho desses!

Poucos dias passados, uma emissora de rádio, – entre a Pan, Estadão, CBN e a Bandeirantes, não me recordo precisamente qual – transmitia reportagem externa sobre a praga urbana que são os poluidores sonoros com suas discotecas ambulantes. Espalhando seus ensurdecedores decibéis, perturbam os que sonham com a voz do silêncio e tranquilidade quando estão repousando para enfrentar as dificuldades e obrigações do dia seguinte. Isto seria o normal para a maioria dos indefesos trabalhadores.
 
Na Avenida Ricardo Jafet, bairro da Saúde, próximo ao Shopping Plaza Sul, a equipe jornalística interpelava diversos motoristas, alegres "no último". 
 
Indagada a respeito, uma jovem ao lado de seu acompanhante no interior de um destes "vistosos" e barulhentos veículos, declarou candidamente:
 
– É gostoso, todos olham prá gente! 
 
Confesso minha incapacidade de compreender tal raciocínio. Sinal dos tempos ou houve uma reviravolta no conceito de ser feliz e respeitar os direitos do próximo? Quanto mais progresso e modernidade maior a regressão?
 
Eles chegam intrépidos e mesmo à distância são ouvidos — durante o dia, noite ou madrugada. Não respeitam a proximidade de hospitais, escolas, igrejas ou delegacias. O desconforto é geral, principalmente entre idosos, crianças e enfermos. Trocando em miúdos, nos agridem a qualquer hora.
 
Existe a regulamentação (Lei 15.777/13) e decreto 54.734/13, publicados no Diário Oficial que coíbem a poluição sonora em carros. Mas quem respeita? Às vezes, o volume é tão intenso que faz vibrar nossas janelas e portas. E sem exageros, o chão e paredes. Quando fica estacionado defronte à nossa moradia, é o inferno total.
 
Quem já foi despertado abruptamente durante a madrugada e de raiva até perdeu o sono, certamente se mostrará solidário ao corriqueiro problema exposto. 
 
Invocando minha "síndrome de cachorro vira-lata", termo magistralmente criado por Nelson Rodrigues, peço a licença para relatar um pequeno fato que testemunhei durante os "longos fins de semana perdidos" em que (sobre)vivi na cidade de Tóquio:
 
Morei em uma estreita e minúscula ruazinha sem saída e na residência da esquina haviam dois cachorros soltos no enorme jardim típico japonês. Tomei conhecimento posteriormente, que lá residia uma professora de piano e seus familiares. 
 
Acreditem, nunca escutei o som de um acorde musical, a simples execução de " O bife" por um aluno principiante e nem sequer o latido dos cães. Aprendi como lá o respeito é sagrado e irrestrito.
 
Uma dúvida atroz sobrevoa minha cabeça e cabe a básica indagação: por que será que nunca ouvi nestes “veículos-discotecas”, um bom chorinho, uma boa MPB ou uma música clássica? E durma-se com um barulho desses!