Continuando com o nosso reinado chega à copa do Chile, outra vez bem representados e defendendo nosso titulo de 58.
Chile 1962
O técnico escolhido foi o Aimoré Moreira, pois o Feola tinha sido acometido por problemas cardíacos. O Dr. Paulo Machado de Carvalho foi outra vez escolhido como chefe da delegação.
E continuou o mesmo sistema de 1958 com 16 seleções, e o Brasil.
Foi sorteado no grupo três, que não era fácil, jogando contra a Tchecoslováquia, México e Espanha, e foi contra a Espanha que o Nilton Santos fez aquele pênalti que o juiz não viu quando o Nilton espertamente deu um passo à frente e ficou quase em cima da linha da grande área.
O jogo estava 0x0 e seria bem provável que o resultado fosse outro se o juiz tivesse assinalado o pênalti, mas ele estava muito longe do lance, e deu no que deu.
No primeiro jogo passamos pelo México: 2×0.
Em seguida jogamos contra Tchecoslováquia e ainda no primeiro tempo o Pelé, nosso coringa, se contundiu e como naquele tempo não eram permitidas substituições ele ficou no jogo só para fazer número. Esse jogo terminou 0x0.
Para o Brasil a contusão do Pelé era uma perda irreparável. “Era o que todos nos pensávamos”.
Mas como Deus sempre foi brasileiro ele deslumbrou o Amarildo, seu reserva, e iluminou ainda mais o Garrincha. Naquele jogo contra a Espanha (o do pênalti não apontado pelo arbitro), a Espanha fez 1×0 no primeiro tempo e ainda anularam outro gol de Puskas que jogava pela Espanha. Quem perdesse estaria eliminado. O Brasil ainda conseguiu empatar com um gol de cabeça de Amarildo já na metade do segundo tempo. E o Garrincha, quase no fim, se não me engano nos últimos minutos, passou por uma série de espanhóis, centrou na área e o Amarildo fez seu segundo de cabeça classificando o Brasil para a próxima fase, embora não tendo apresentado o futebol que todo o mundo esperava talvez pela contusão do Pelé.
Nas quartas de final jogamos e ganhamos da Inglaterra por 3×1 com dois gols do Garrincha e um do Amarildo. Lembro que no meio do jogo apareceu um cachorro preto que driblou ate o Garrincha, que tentou agarrá-lo para que o jogo continuasse, mas sem sucesso. Ainda depois disso apareceu outro cachorro que saiu sem dar maiores problemas.
Aí, fomos à semifinal jogar contra o dono da casa, o Chile. Ganhamos de 4×2, mas, com o nosso melhor jogador, o Garrincha, sendo expulso no segundo tempo e ainda por cima quando saía levou uma pedrada na cabeça atirada por um torcedor chileno.
Aliás, eu sou um colecionador de tudo sobre copas.
Tenho 99% de todos os jogos do Brasil depois de 58 que estavam em VHS , e agora todos em DVD . De vez em quando mato as saudades vendo os jogos antigos, principalmente em épocas como estas de copa do mundo.
Na final voltamos a jogar com a Tchecoslováquia.
Na primeira fase havíamos empatado sem gols. O Garrincha, que tinha sido expulso, foi absolvido no julgamento no tribunal esportivo da FIFA (ainda bem).
Logo no inicio do jogo eles abriram o marcador, mas o placar final foi 3×1. De virada o Amarildo empatou ainda no primeiro tempo e o Zito e o Vavá completaram o marcador e Mauro, que era o beque titular do São Paulo, imitou o gesto do Belini levantando a taça mais uma vez como que agradecendo a Deus pelo titulo suado de Campeão Mundial de 1962.
A nossa festa outra vez começou na Caetano Pinto com quase os mesmos amigos da copa de 58: o Careca, o Bolão, o Aquilino, o Gibino, o Rubico… Só que desta vez fomos com o meu carro.
Adaptei um mastro na sapata do pára-choque do Chevrolet 51 e nossa bandeira enorme tremulava nesse mastro.
Na época eu tinha instalado uma buzina a ar comprimido, com quatro cornetas que me davam quatro notas e com elas tocava algumas musicas como parabéns, mustafá, marcha nupcial e principalmente muito barulho. E saímos pelas ruas da cidade de São Paulo.
E como em 58 nossa primeira passagem foi na Avenida Cásper Líbero, que estava repleta de torcedores festejando a nossa vitória, e que abriram para a nossa passagem barulhenta tocando o parabéns ao Brasil, fizemos tudo o que tínhamos direito, pois, naquele momento valia tudo (sem muitos exageros, logicamente), e até os policiais eram complacentes com nossa festa.
Entramos pela Rua Direita que era usada só pelos pedestres. Sempre com os aplausos de todos e os vivas aos campeões mundiais. Festejamos até alta madrugada.
Essa foi para mim a ultima Copa que tive o prazer de acompanhar no Brasil, pois deixei o Brasil em 1965, mas nunca deixei de seguir torcendo e festejando todas as copas, mesmo tão distante, mas sempre com a mente voltada a meus amigos que deixei em São Paulo e no Brasil.
Inglaterra 1966
Esta foi a Copa classificada como escandalosa, pelas coisas estranhas que aconteceram durante seu desenrolar. Até a Copa Jules Rimet chegou a ser roubada de uma exposição comemorativa, pouco antes do mundial, e nem a Scotland Yard, apesar dos esforços, conseguiu encontrá-la.
Quem acabou encontrando a copa foi um cachorrinho que passeava com seu dono no meio de um lixão (sem querer ser sarcástico eles pelo menos encontram, e nós estamos procurando ate hoje pela mesma taça que talvez um cachorrão tenha surrupiado). Com a morte do Jules Rimet, em 1956, e depois da eleição de uns dois presidentes, acabou sendo eleito um inglês o Sr. Stanley Rous como presidente da FIFA e ele se empenhou a fundo para que a Inglaterra ganhasse a indicação, como acabou acontecendo.
Para mim não foi fácil acompanhá-la, pois tinha deixado o Brasil, e sentia a falta da família, dos amigos, porque tínhamos o costume de sempre em grupos acompanhar os jogos.
Mas com meu pensamento sempre voltado a eles consegui acompanhar alguma coisa, pois tinha deixado o Brasil um ano antes. Mesmo assim consegui assistir pela televisão o único jogo que a NBC transmitiu que foi a final no estádio de Wembley.
O Brasil que tentava o Tri, e a volta do Vicente Feola como técnico da canarinho, acredito, não foi uma boa, pelos problemas sérios de saúde que ele enfrentava. E ele com o bonachão que era acabou sofrendo pressões de clubes e interessados que queriam ver seus apadrinhados convocados, e assim chegamos à Europa, com boa parte de jogadores de 58/ 62, mas que já não tinham as mesmas condições físicas e técnicas para desempenhar um bom papel.
E nosso time foi cassado em campo com a conivência dos juízes que apitaram seus jogos, e a desorganização do nosso grupo foi total. Nem passamos das oitavas.
Fomos derrotados pela Hungria e Portugal e só ganhamos da Bulgária. Foi uma das piores participações do selecionado em copas.
No jogo contra os patrícios, o Pelé foi cassado em campo e o juiz inglês só olhava os portugueses descer o sarrafo como dizendo: “dá mais!”. No fim, já sem condições, acabou ficando em campo. A Argentina foi muito prejudicada pela arbitragem e teve o Ratin que era o melhor jogador dos “hermanos” expulso, porque reclamou do jogo violento que eles estavam praticando.
Para finalizar, depois do tempo regulamentar terminar 2×2, na prorrogação, o juiz validou um gol que tinha batido no travessão e bateu no solo, voltando para o campo, e com isso eles se sagraram campeões pela primeira e única vez. Por isso a chamavam de “Copa Escandalosa”. Portugal foi eliminado pelos ingleses na semifinal por 2×1 e conseguiu depois o terceiro lugar derrotando a URSS por 2×1.
Para nós, que morávamos em Nova Jersey, com a colônia portuguesa numerosa, não foi fácil aguentar a torcida deles durante mais de um mês, porque no mês de Agosto o Benfica, que tinha seis titulares da seleção e mais três reservas atuando no seu time, Eusébio incluído, veio para Nova York jogar uma partida com o Santos (que se tivesse representado o Brasil naquela Copa tinha feito melhor papel).
Era aquele Santos do Pelé e companhia com o Lula como treinador. Estivemos em um grupo de amigos visitando os jogadores no hotel ao lado da Times Square (com direito a fotos com Pelé, Gilmar, Zito, Mengalvio, etc). O jogo foi realizado no Downing Stadiun sem alambrado e a segurança dos atletas era feito por meia dúzia de policiais.
O Santos goleou o Benfica por 4×0, fora o baile com o Pelé comandando a orquestra.
Lembro que depois do show, já nos minutos finais, o Pelé, numa jogada perto do túnel que dava acesso aos vestiários, correu e abandonou o jogo, pois todos sabiam o que iria acontecer quando o juiz apitasse o fim da partida.
Aquele jogo foi, para nós brasileiros, um alívio, pois os portugueses de Nova Jersey tinham ficado os donos do mundo depois daquela copa. E eles só chegaram às semifinais e ficaram em terceiro. Imaginem se tivessem sido campeões!
No próximo capítulo, 1970, no México.