A surpresa

Já há alguns anos longe de São Paulo, morando em uma ex-pacata cidade do interior, vou levando minha vida de aposentado brincando de trabalhar em uma pequena propriedade rural, herdada de meus pais… Vou executando trabalhos braçais principalmente em madeira, me contentando quando alguma sai próximo daquilo que imaginei…  Procuro me sentir útil.
 
Ao cair à tarde, volto para casa preocupado, não em descansar, mas em como passar as horas. Nesta época de Copa do Mundo, não dá para assistir televisão de tantas notícias, entrevistas, relatos a respeito. Embora goste de assistir pela TV um bom jogo… O excesso da mídia aborrece.
 
Após o jantar, venho até meu companheiro computador, e fico ora viajando através do Google Earth, ora procurando ouvir algumas músicas antigas, me deliciando com letras das mesmas, e admirando as analogias usadas pelos autores, para expor seus sentimentos…
 
Em um destes passeios, ouvi uma música… Rosa, de Pixinguinha…
 
E o arquivo da memória, volta ao filme ao início dos anos 60.
 
Jovem, jogava (pensava que) de zagueiro em um time da vila onde morava na Vila Nair, Ipiranga. E dentre alguns companheiros se destacava pela versatilidade, o Baltazar, na verdade Sebastião, um “negão” calado, sereno. Morava até que distante de nossa vila, para lá da estrada da Vergueiro, e nunca fazia parte da turminha que passava as noitinhas reunida na esquina perto da sede do time, contando piadas, pequenas aventuras, e se deliciando quando o nosso barítono Zampanô, nos acompanhava cantando cançonetas italianas…
 
Uma daquelas noites, a turminha já quase ia se desmanchando, quando surgiu o tal do Baltazar, carregando um violão. Aproximou-se despertando nossa curiosidade, principalmente pelo violão… Entre perguntas e piadas, começou dedilhar o instrumento e para nossa surpresa, cantou "Rosa"… E a extensa letra da música foi cantada até o final, para admiração da moçada…
 
E ao pedido de "canta outra", levantou-se e simplesmente disse:
– “Só sei esta…”
 
E foi-se embora, deixando-nos ali abolhados…